Tecnologia aliada ao humanismo: utopia ou realidade?

Foto: Kuldeeps2105/CC

É possível, numa sociedade capitalista, aplicar uma visão humanista aos avanços tecnológicos, colocando o ser humano no centro da questão e não o lucro? Essa indagação tem se tornado frequente entre os especialistas em Economia Criativa.

Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, a norte-americana Kate O’Neill, autora de Tech Humanist, um manifesto no qual defende que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado de preocupação ética com seus efeitos para o ser humano, criticou as grandes empresas de tecnologia por estarem apenas “pensando em lucro e crescimento, que é um modo muito limitado de ver a tecnologia”.

“A tecnologia é muito mais poderosa. As empresas podem unir o lucro a uma busca por melhorar a vida humana”, disse O’Neill, que defende em seus livros que a tecnologia precisa andar de mãos dadas com os valores da sociedade. “A ideia é que o ser humano deve ficar no centro, de que há valor na vida humana e que ela deve ser respeitada. Há um avanço tecnológico muito grande capitaneado pelas empresas, mas, na verdade, é uma construção coletiva que deve ter como norte ajudar a humanidade”.

“Conforme as tecnologias avançam e permitem às empresas ampliarem sua atuação, há uma obrigação ética crescente de alinhar os negócios com as consequências que eles geram para o ser humano, de modo a garantir que não exista uma diferença grande demais entre quem tem acesso e quem não tem”, afirmou a escritora.

O ser humano deve ficar no centro. Há um avanço tecnológico muito grande capitaneado pelas empresas, mas, na verdade, é uma construção coletiva que deve ter como norte ajudar a humanidade

Para o doutor em História Política pela UERJ e colunista na Revista Fórum, Raphael Silva Fagundes, é o próprio capitalismo que impede que a tecnologia atinja o seu máximo potencial: como vive a partir do lucro, as reais necessidades humanas são ignoradas. Em entrevista para o Socialismo Criativo, Raphael explicou que o embate com o capitalismo é tão forte que seria praticamente impossível aplicar uma visão humanista à tecnologia dentro do sistema.

Há dois pontos que precisam ser superados para isso, defende: a fascinação pelo lucro e o utilitarismo. “As pesquisas em medicina, física quântica, astronomia etc., estão ligadas ao financiamento capitalista. Isso atravanca o avanço científico”, diz. “É preciso lembrar, como fez o professor Nuccio Ordine em seu manifesto A Utilidade do Inútil, que as maiores descobertas científicas não tinham finalidades utilitárias. Foi a inutilidade que promoveu o progresso científico. Maxwell, Hertz, Newton, Einstein e outros cientistas, quando desenvolveram suas descobertas, não faziam ideia da utilidade prática. Ramanujan, por exemplo, tinha apenas o desejo de resolver problemas puramente matemáticos sem nenhuma aplicação no mundo real.”

É preciso lembrar, como fez o professor Nuccio Ordine em seu manifesto A utilidade do Inútil, que as maiores descobertas científicas não tinham finalidades utilitárias. Foi a inutilidade que promoveu o progresso científico

Raphael também afirma que uma economia não baseada no lucro seria mais capacitada para desenvolver tecnologia do que as grandes potências capitalistas. A Economia Criativa é vista pelo colunista como um caminho para combater o atual modelo econômico e se alinhar aos valores da esquerda, com um modelo que tenha como prioridade o desenvolvimento humano. “A Economia Criativa deve ser crítica ao capitalismo, uma alternativa de superação, primeiro por propor um modelo sustentável para o meio ambiente e, segundo, por ser capaz de distribuir os frutos da produção. A tecnologia, por conseguinte, deve acompanhar esse modelo econômico criativo, como a maior parte das outras esferas sociais”, afirmou.

Ele citou Einstein em seu famoso artigo Por que Socialismo?, de 1949, para embasar sua opinião. “A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso (…) O lucro como motivação, em conjunto com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves. Essa deformação dos indivíduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para sua futura carreira, é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo”, escreveu o físico.

Para Raphael, o único meio para que enfim os valores humanos sejam colocados como o foco central da tecnologia seria a universalização da educação e do trabalho. “Dificilmente o mérito de uma escola está para formar pessoas felizes, que pensem no outro, mas por ter um aluno que passou em um concurso, ou que está bem sucedido economicamente. Não se estuda para conhecer e para desvendar os mistérios do mundo, mas para arrumar um bom emprego. O mesmo serve para o trabalho. O trabalho alienado é mais comum que o trabalho consciente. As pessoas trabalham com objetivos externos, ou seja, para sustentar a família, para comprar um carro, para ir à Disney, mas jamais pelo trabalho em si”, opina.

“A universalização da educação e do trabalho seria estudar e trabalhar como uma finalidade em si. Estudar para conhecer, para transformar o mundo. Assim teremos um trabalho mais consciente, preocupado com o que se produz, se o que faz é nocivo ao meio ambiente, às gerações futuras etc.”, continua o especialista. “A Economia Criativa é pensar o trabalho desta maneira, não com a finalidade apenas lucrativa.”

 

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