Mulheres que Inspiram: Adriana Barbosa e sua Feira Preta.

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Publicado em: 25/04/2018

“A Feira Preta é um festival de múltiplas linguagens e reúne as principais tendências afro-contemporâneas em moda, design, arquitetura, empreendedorismo, literatura, musica, artes visuais, gastronomia, workshops, diálogos criativos, entre outros”.

Formada em gestão de eventos e pós-graduada em gestão cultural, Adriana circulou por muitos locais e atuou em diversas áreas, antes de se tornar uma empreendera. Por exemplo, trabalhou em algumas rádios, em uma gravadora musical e em uma produtora de TV.

Mas foi em um momento difícil da vida profissional e pessoal, quando tentava voltar ao mercado depois de alguns meses de desemprego, que ela experimentou trabalhar em um setor totalmente novo: uma feira de rua. E o que surgiu de uma necessidade urgente e imediata se transformou em um negócio promissor. Acompanhe o bate-papo com essa empreendedora que identificou na diversidade um excelente negócio.

Como começou sua participação em feiras?
Eu me uni com uma amiga, que era da área de cinema e estávamos as duas desempregadas. Queríamos voltar para os nossos mercados, mas como não estávamos conseguindo, resolvemos fazer as feiras e mercados alternativos de rua.

Ela vendia pastel e eu vendia roupa. Comecei vendendo as minhas próprias roupas, montei o Brechó da Troca, passei a trocar peças com outras mulheres para ter um acervo maior de peças que se diferenciavam do meu tamanho. O sistema era bem simples de troca.As pessoas se interessavam e eu trocava com elas. O Brechó da Troca circulava as feiras e mercados alternativos de rua com uma estrutura básica de araras e mesas de suporte para a venda de acessórios.

Mas durante uma dessas feiras houve um arrastão e perdemos parte de nossa mercadoria.Nesse momento resolvemos que era hora de montar a nossa própria feira, com a nossa identidade.

E a Feira Preta, como surgiu?
Em 2002, a Vila Madalena, bairro, artístico e boêmio da cidade de São Paulo, era um ponto de concentração de casas noturnas de black music, havia uma forte influência da cultura negra e americana. Como frequentávamos aquelas festas, vimos que ali havia a oportunidade para empreender em algo que fosse voltado à nossa identidade e à nossa história, ligado ao aspecto artístico e cultural. Aí, decidimos criar a Feira Preta, na Praça Benedito Calixto.

A Feira Preta tinha como propósito trabalhar com dois segmentos: por um lado, atuar em todas as linguagens artísticas, do ponto de vista da produção, da valorização e da disseminação da cultura e de outro lado, atuar na área de empreendedorismo, reunindo em um único espaço empreendedores que estivessem voltados para uma segmentação com uma estética negra, tais como roupas, acessórios, maquiagens, objetos de decoração, livros, peças de artes. Começamos a mapear a coletar informações sobre expositores que seguissem essa linguagem estética em cores, texturas, formas que tivesse uma representatividade na identidade negra e passamos a capturá-los para participar da Feira Preta. Na primeira Feira, foram cerca de 40 expositores que tinham produtos voltados para essa estética negra. A partir daí conseguimos o patrocínio da Unilever, que na época lançou o primeiro produto destinado especificamente para a pele negra, da Kaiser, da Red Bull e a da Prefeitura de SP, com a coordenadoria da população negra. Com parte dos recursos obtidos com os patrocinadores e grande parte da estrutura custeada pela prefeitura, através dessa coordenadoria, a Feira Preta começou na Praça Benedito Calixto, em SP.

Explique-nos como funciona a Feira Preta?
A Feira Preta é um festival de múltiplas linguagens e reúne as principais tendências afro-contemporâneas em moda, design, arquitetura, empreendedorismo, literatura, musica, artes visuais, gastronomia, workshops, diálogos criativos, entre outros.
Estamos de olho nos grandes movimentos do país, nas áreas de inovação, tecnologia, economia criativa e afro-empreendedorismo.

Como o negócio Feira Preta se sustenta financeiramente?
A Feira Preta se sustenta financeiramente com receitas internas, como a locação de espaços de expositores, a venda de produtos da marca (temos, por exemplo, uma edição especial de camisetas feitas em parceria com a marca Cavalera), a venda de bebidas durante o evento, no Bar Feira Preta, além de consultorias na área de diversidade para as empresas e a replicação do modelo em outras localidades (formato de franquia social).

A Feira Preta é pioneira?
A Feira Preta foi pioneira há 16 atrás ao trazer como pauta, a inclusão econômica da população negra, por meio do estimulo ao empreendedorismo. Fomos pioneiros em trazer um formato de feira com um modelo hibrido entre cultura e comércio pautados na identidade afro-brasileira. Hoje há muitos modelos similares, alguns deles se inspiraram na Feira Preta.

Na feira teve dois movimentos. Um relacionado ao público participante que circulava entre os corredores lotados do pavilhão e se deslumbrou com a oportunidade de empreender e criou marcas para atender a demanda de consumo. E o segundo movimento, foi também de uma outra parte de público e outras localidades, que leva o modelo para outras regiões e, quando a Feira chega em regiões mais afastadas, possibilita que outros empreendedores criem produtos para atender aquela demanda local. Ou seja, uma onda de ressonância se espalha pelo Brasil.

Eu vejo o modelo da Feira em um formato de governança compartilhada, em que a inciativa privada, o estado, o público, o empreendedor (de arte, cultura, moda, gastronomia, etc) e a organização têm que aportar um pouco para que o modelo continue existindo. É como se fosse uma engrenagem que precisa de todas as peças. Se faltar alguma, a máquina para de funcionar.

E o Instituto Feira Preta, o que é?
É uma plataforma que há 16 anos fortalece e valoriza a cultura negra no Brasil. Unimos empreendedores que transformam nossa identidade em produtos, serviços e soluções criativas. Mapeamos o afro-empreendedorismo no Brasil e atuamos como aceleradores e incubadores de negócios negros, além de articuladores do Black Money (modelo americano que circula dinheiro entre afrodescendentes em produção e consumo, ou seja, movimento que estimula a produção e a compra entre afrodescendentes) e promotores de educação empreendedora.

As atividades do instituto estão distribuídas em todo o território brasileiro, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão e Distrito Federal. Também estamos de olho em mercados como o financeiro, alimentar, games e tecnologia, que hoje representam um novo patamar a ser impulsionado na construção de valor do empreendedorismo negro.

Qual seu papel na Feira Preta?
Tenho uma atuação cada vez mais desapegada e compartilhada com uma rede de colaboradores e voluntário bastante diversos. Na Feira Preta temos pessoas de todas as etnias e idades, embora tenhamos uma predileção pelos negros, pois uma de nossas metas é contribuir com a inclusão de uma mão de obra qualificada e negra, e infelizmente colocada à margem do mercado de trabalho formal. Mas tenho aprendido o valor da diversidade de forma mais profunda. Normalmente estou nos lugares trazendo o tema da inclusão de negros para os espaços corporativos, mas precisamos entender que a diversidade atua em mão dupla e é importante, também, receber os não negros para aportar o melhor em suas competências e habilidades. O resultado foi maravilhoso, pois conseguimos remodelar a Feira Preta e atrair mais de 27 mil participantes em uma única edição, com mais de 20 atividades espalhadas pelas 5 regiões de SP.

Desde o início, a Feira Preta cresceu bastante e ampliou seus eixos de ação, não é?
Sim. No seu primeiro ano de funcionamento, a Feira reuniu mais de seis mil pessoas e teve apresentações da cantora Paula Lima e do grupo Clube do Balanço, dois expoentes musicais na época. Mas em 2004 enfrentamos uma crise, a Feira deixou a Praça Benedito Calixto, precisou migrar para o Pavilhão Anhembi, e deveríamos pagar para usá-lo. Começamos a angariar recursos de ONGs e empresas que apoiavam nossa proposta e o projeto acabou se transformando em um grande empreendimento cultural, abrindo portas, também, para outros negócios voltados para a questão negra. Abriu-se um leque de possiblidades. Começamos a atuar na questão do empreendedorismo, participando de competições, de incubadoras e de aceleradoras, e recebemos um aporte financeiro de uma ONG chamada Artemisa, que financia jovens empreendedores. Com o dinheiro, conseguimos implementar o plano de negócios e a feira se tornou, também, uma plataforma de ações com foco na população negra e na cultura.

E o Preta Qualificada, o que é?
Trata-se de um novo projeto, que tem o objetivo de qualificar os empreendedores, expositores e artistas da Feira Preta, do ponto de vista da gestão dos seus negócios.

Temos parceria com o Sebrae para capacitações em diversas áreas, como estratégias de marketing, atendimento ao cliente, elaboração de projetos para editais, entre outros. Temos, também, o seminário de boas práticas em economia criativa, com a proposta de dar visibilidade aos cases e empreendedores de sucesso. Já levamos, por exemplo, o rapper Emicida para contar sua história, como ele consegue prensar o CD na casa dele, fazer a distribuição e assinar contrato com a Nike. Precisamos que essas boas práticas sejam replicadas.

Quais os maiores desafios que você enfrentou no início?
Quando iniciei estra trajetória, em 2002, o obstáculo com as empresas era entrar com a pauta do negro, a partir de uma perspectiva de negócio. Ouvi de várias corporações que não poderiam apoiar a Feira Preta porque o nome remetia a uma questão de conflito racial e eles não enxergavam o potencial pelo viés de segmento de mercado. Muitas pediram para eu alterar o nome para algo do tipo “Feira Étnica”, por exemplo.

Esse cenário mudou?
Sim, hoje tem um novo contexto. As empresas querem investir nesta segmentação, a partir da perspectiva da diversidade. No entanto, o foco é social e não mercado.

Ainda hoje, a peregrinação para mobilizar recursos para a Feira Preta tem porta de entrada nas áreas de Sustentabilidade, Responsabilidade Social ou até Recursos Humanos e não no departamento de Marketing. E acho que é possível fazer o investimento social privado pela área do social, claro, mas observo melhores perspectivas pela área de marketing, trabalhar com marcas alinhadas à compreensão de que o social não está desvinculado da inserção em todos os aspectos do mercado, de rever e ressignificar o mercado. Mas isso ainda não é a realidade de hoje.

Quais estratégias têm dado melhor resultado nesta trajetória?
Gerimos a Feira Preta com uma metodologia pautada nos 4 pilares conceituais da economia criativa: Criação, Produção, Distribuição e Consumo.

A Feira Preta tem como competência e habilidade o escoamento de produtos produzidos por afro-empreendedores, ou seja, uma vocação muito forte na parte de distribuição e consumo. Foi para isso que ela nasceu: para propiciar um espaço capaz de revelar essas potencias criativas. No entanto, passado 17 anos, estamos olhando para os processos de criação e produção dos empreendimentos afro-centrados, desenvolvidos para atender um mercado de consumo segmentado na estética e que atenda as especificidades da população negra, tanto em produtos como em serviços.

Essa estratégia de olhar esses 4 pilares tem possibilitado avançarmos na trajetória do empreendedorismo negro, e transcender da necessidade para a oportunidade de mercado de mais da metade da população brasileira.

Quais as principais conquistas até o momento?
A Feira Preta se tornou a maior feira negra da América Latina, reunindo um público médio de 14 a 15 mil pessoas, na edição do ano passado reunimos mais de 27 mil pessoas. Nesses 16 anos a gente teve mais de 4,5 milhões de reais de circulação monetária de venda dos expositores. Mais de 900 artistas já passaram pela Feira, que começou a ser reproduzida em outros estados, por iniciativas espontâneas. A ideia é que ela possa ser replicada, também, em outros países da África de língua portuguesa, América Latina e nos Estados Unidos.

Fonte:  Itaú Mulher Empreendedora

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