Economia criativa, o novo Eldorado que a Europa e a América Latina querem liderar

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Ilustração: UNCTAD

Por Jesus Garcia Lorente, na IN Sights

Por que em poucas horas os ingressos para uma performance do Cirque du Soleil se esgotam rapidamente enquanto os circos tradicionais estão em decadência? Carregar uma bolsa ou usar um sapato qualquer são o mesmo que ter uma bolsa Hermès ou um par de Manolo Blahniks? O que é mais importante para a Apple, tecnologia ou design? Por que estes produtos multiplicam seu valor agregado comparados a outros produtos similares? A resposta é criatividade e seu setor produtivo, as chamadas indústrias criativas (em inglês, CCIs ou Cultural and Creative Industries).

O conceito de “economia criativa” se originou da chamada “Economia das Artes” como uma disciplina independente dentro das Ciências Econômicas a partir de 1966, com a publicação do ensaio Performing Arts: The Economic Dilemma, de William J. Baumol e William G. Bowen. Mas o termo só se tornaria conhecido após ser utilizado pela primeira vez por John Howkins no livro Economia Criativa: Como Ganhar Dinheiro com Ideias Criativas, de 2002.

Ao mesmo tempo, organizações internacionais como a Unesco, a Organização Internacional de Propriedade Intelectual (WIPO), a OCDE e a UNCTAD, entre outras, cientes do potencial do setor, desenvolveram diferentes critérios em uma tentativa de classificar os setores criativos em cada país.

Está claro que na sociedade do conhecimento a economia criativa está mudando a organização da atividade social e econômica em países desenvolvidos. Por um lado, o modelo anglo-americano de gestão cultural está sendo introduzido em oposição ao modelo franco-continental, onde a cultura está deixando de ser considerado um bem público, e por isso mantido pelo Estado, para se tornar somente mais uma atividade econômica, sujeita às regras do mercado.

Por outro lado, as indústrias mais tradicionais estão devotando grande esforço em incorporar o design e a criatividade a seus produtos como um diferencial, convertendo aspectos intangíveis em elementos estratégicos chave dos seus bens e serviços.

A economia criativa baseia sua importância em quatro valores fundamentais:

  1. Valor econômico: a economia criativa contribui com 6,1% do PIB mundial e entre 2% e 7% do PIB das economias dos países. Isso quer dizer que na economia global um PIB de U$4,300 trilhões é gerado e a exportação de bens e serviços criativos e culturais representa U$646 trilhões, dos quais 82% vêm de países desenvolvidos, o que reflete um controle no comércio destas indústrias, dada a limitada descentralização do talento criativo.
  2. Valor de inovação: sem nenhuma dúvida, a inovação é baseada em criatividade, e todo ser humano é criativo de alguma forma. Portanto estes países, instituições e empresas que conseguirem estimular, angariar e reter seus talentos criativos, assim como promover e monetizar esta criatividade, irão obter uma inesgotável fonte de desenvolvimento, criatividade, competitividade, diferencial e valor agregado às atividades tradicionais, assim como às atividades baseadas em tecnologia.
  3. Valor social: a economia criativa baseia seu desenvolvimento em conhecimento e talento, então sua implementação e crescimento são liderados pela assim chamada “Classe Criativa”; cientistas, engenheiros, professores universitários, escritores, artistas, atores, designers, arquitetos e líderes intelectuais, figuras do mundo da cultura, pesquisadores de think-tanks, analistas e influenciadores. Portanto, o perfil sociocultural da “Classe Criativa” implica na geração de ambientes que Florida considera ser a base da sociedade que prospera. Os três Ts: talento, tecnologia e tolerância.
  4. Valor sustentável: como setores produtivos da economia criativa, as indústrias culturais e criativas produzem bens e serviços com valor estético e funcional. Quer dizer, usam criatividade e capital intelectual como insumos primários e portanto têm ilimitados insumos disponíveis. Portanto, a economia criativa propõe modelos econômicos limpos, verdes e sustentáveis.

Em 2010, a União Europeia publicou um documento chamado Livro Verde: Realizar o potencial das Indústrias Culturais e Criativas, no qual um chamamento foi feito aos países membros sobre a importância crescente das CCIs na geração de crescimento e emprego direto, além de ter um efeito multiplicador sobre muitos outros. Também sustenta que as CCIs desfrutam de um enorme potencial para produzir mudanças na União Europeia, estabelecida na estratégia Europa 2020. Da mesma forma, aponta que “há um potencial ainda não explorado nas CCIs de criar crescimento e empregos” e que “uma grande parte da nossa futura prosperidade dependerá de como usaremos nossos recursos, conhecimento e talento criativo para estimular a inovação baseada em nossas ricas culturas”.

Além disso, em 2013 eles aprovaram os orçamentos finais do programa “Europa Criativa”, com um total de 1,8 trilhão de euros para o período 2015-2020, dirigida a otimizar as Indústrias Culturais e Criativas da Europa.

Um outro passo foi dado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), com a apresentação do documento A Economia Laranja: uma oportunidade infinita, onde são apresentados conceitos e ideias-chave desconhecidos sobre a importante oportunidade de desenvolvimento que a América Latina e o Caribe têm com a Economia Criativa, que “não podem desperdiçar”.

Didático e com a intenção de tornar visível compreensível e extensivo aos fundamentos da macroeconomia da Economia Criativa, o texto disponibiliza dados incríveis como:

Você sabia que se a economia criativa fosse um país seria…
– …a quarta economia mundial, 20% maior que a economia da Alemanha ou 2,5 vezes os gastos militares globais?
– …a nona potência comercial no planeta, com um crescimento de 134% nos últimos 10 anos, o dobro da exportação de petróleo da Arábia Saudita?
– …o quarto mercado de trabalho, equivalente a todos os empregos nos EUA?

Baseado nestas informações, é inegável que a economia criativa e seus setores produtivos, as Indústrias Culturais e Criativas (CCIs), são o novo Eldorado para as economias pós-industriais do século 21 para o desenvolvimento produtivo, a competitividade e a criação de empregos de alta qualificação e qualidade.

 

VIADa Redação
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