Uma economia limpa agrega valor ao país e aos produtos brasileiros

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Imagem aérea do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Foto: PR

Por Liliana Peixinho*

Não tem volta, a vida precisa de mudança de comportamento, de sujo em limpo. E isso não é mágica, exige informação, criatividade, coragem, proativismo diário, consciência. Uma nova ordem mundial está colocada, para cada cidadão, planeta Terra adentro e afora. O desafio é a garantia da vida em harmonia, com qualidade, prazer, alegria, desejo de querer fazer, não porque alguém nos manda, ordena, impõe. Mas porque sabemos ser necessário, importante, no papel social de cada um, em casa, no trabalho, na escola, no lazer. Nesse contexto, como as pessoas, cidadãos, empresas, ONGs, movimentos, enfim, cada um de nós, se insere, se percebe, se afirma, para tentar garantir a preservação da vida em harmonia neste planetinha em agonia, transformação?

É fato que o Brasil vem perdendo posição privilegiada na pauta do clima, o que se agravou com retrocessos e desmontes de estruturas de retaguarda ambiental. Especialistas falam sobre a necessidade de melhorar indicadores e gerar valor a uma Economia que se mostre harmoniosa com os desafios de preservação da vida no planeta. Os recentes boicotes a produtos brasileiros pelo uso de agrotóxicos já banidos em países da Europa, por exemplo, são um indicativo econômico para mudança da política brasileira. O recuo ambiental pode ter impacto financeiro de até US$5 trilhões até 2050. A governança se mostra extremamente fragilizada. O desmatamento explode e o Brasil, como sétimo maior emissor, terá que comprar créditos de carbono no exterior para cumprir sua parte no esforço global de reduzir a emissão de gases-estufa.

As crises econômicas, políticas e sociais são sinais da necessidade de mudança do que não deu certo, como o consumo voraz, o desperdício e o egoísmo; para novas atitudes, de consumo consciente, com desenvolvimento limpo, em consumo do que é produzido em responsabilidade com a preservação da vida

Reservas florestais, matriz energética limpa, cuidados com os recursos hídricos, problemas sérios entre produção, consumo e descartes, fortalecem demandas urgentes na necessária transição para uma economia de baixo carbono. O que antes se tratava como discussão periférica passou a ser tendência global, já incorporada por setores resistentes. No entanto, no Brasil, basta observar gestões em desperdício e falta de planejamento, para entender que o país ainda não adotou a lógica da Economia limpa, do baixo carbono, em suas obras. Peças publicitárias, anúncios midiáticos, discursos políticos engrossam o marketing do Greenwashing, enquanto a realidade mostra a distância entre o que se propaga e os fatos. Perdas gigantescas e historicamente irrecuperáveis, a exemplo dos recentes crimes socioambientais promovidas pela indústria de mineração, reforçam a necessidade de entender a questão climática, que precisará de uma reengenharia na Economia, na Geopolítica do desenvolvimento. É Ciência comprovada e precisa de medidas de adaptação, inteligentes.

Novas possibilidades econômicas abrem espaço para a construção de cadeias harmoniosas de produção, consumo e descarte, de ponta a ponta. Oportunidades diretamente linkadas à mudança de comportamento para novas atitudes sobre consumo consciente, comércio justo, produto limpo, desperdício zero, cultura dos Rs: Racionalizar, Repartir, Reutilizar, Reduzir, Reaproveitar, Reinventar, Recriar, Revolucionar comportamentos sujos em limpos.

Numa crise de desemprego, como a que estamos a enfrentar agora, é importante o acesso a informações contextualizadas com a realidade de uma crise estrutural, com o olhar integrado, multifacetado e atento à necessidade de construção de cadeias produtivas sustentáveis, harmoniosas, de ponta a ponta. Planejamento, aplicação de políticas de desenvolvimento humano, com equidade, compromisso, justiça social e equilíbrio ambiental, são fases importantes para qualquer ação do presente, para garantia do futuro.

O comércio, a propaganda, as formas de produção continuam sendo oferecidas para atender demandas de consumo incentivadas por uma publicidade ainda desatenta às adaptações a um novo ambiente, que indica limites no uso dos recursos naturais. A sustentabilidade ainda é um discurso bem distante da prática. Precisamos reconstruir estratégias com flexibilidade, resgates de valores perdidos, acesso a oportunidades para a redução das desigualdades, defesa da justiça social, garantia de moradia digna, saúde integral, educação continuada, liberdade de expressão e qualidade da informação. Temas que continuam na pauta diária. Aliar responsabilidade social ao desenvolvimento sustentável, não se alcança fazendo propaganda enganosa. Dizendo, divulgando que faz, sem realmente colocar em prática. Observamos que o marketing empresarial, institucional, difunde para o mundo, em sites, blogs, peças publicitárias e ferramentas as mais variadas e acessíveis no mercado, informações no mínimo duvidosas, para não dizer criminosas.

O recuo ambiental pode ter impacto financeiro de até US$5 trilhões até 2050. O desmatamento explode e o Brasil, como sétimo maior emissor, terá que comprar créditos de carbono no exterior para cumprir sua parte no esforço global de reduzir a emissão de gases-estufa

Recebemos recados claros da natureza como um alerta para a adoção de novas atitudes e desafios no fazer, pensar e agir. As crises econômicas, políticas e sociais são sinais da necessidade de mudança do que não deu certo, como o consumo voraz, o desperdício e o egoísmo; para novas atitudes, de consumo consciente, com desenvolvimento limpo, em consumo do que é produzido em responsabilidade com a preservação da vida. Aumento de estresse, violência, corrupção, engarrafamentos, fome, sede, miséria, e outros indicadores sobre a qualidade da vida, são retratos  de políticas governamentais que não prioriza o bem estar do cidadão.

O brasileiro é criativo, gosta de trabalhar, inovar. No entanto, em meio a tanto consumo, ainda não aprendeu, como cidadão, a cuidar do ambiente onde a vida se desenvolve. O Brasil anda longe de resolver o problema do descarte de resíduos e a indústria da reciclagem trabalha, basicamente, na absorção do trabalho de catadores, nas ruas. Não temos uma política reversa. O produtor não se responsabiliza por embalagens, em suas diversas formas e produtos. Sem educação ambiental o resultado é um país com montanhas de lixos nas ruas , a caminho dos lixões ao ar livre. O Movimento AMA (Amigos do Meio Ambiente), que faz a campanha Desperdício Zero = Lixo Zero desde 1999, desenvolve diversas ações para a desconstrução do conceito, sujo, de lixo. Nesse sentido, apoia iniciativas coletivas para o consumo consciente onde tudo o que iria virar lixo pode retornar à cadeia produtiva, de forma criativa, inclusiva. Cada produto que adquirimos para consumir tem um rastro histórico de produção, iniciado e finalizado na grande matriz Natureza. Importante nesse processo escolhermos produtos com aproveitamento máximo, vida útil longa, para evitar novas emissões.  Pequenos gestos, nessa cadeia, fazem muita diferença. Menos uma sacolinha plástica aqui, privilegiar o pequeno produtor agrícola ali, ou aproveitar integralmente alimentos acolá, no fim do dia fazem muita diferença, no todo.

*Liliana Peixinho é jornalista, ativista, especialista em Jornalismo Científico e Tecnológico. Fundadora do Movimento AMA (Amigos do Meio Ambiente), Mídia Orgânica, Reaja (Rede Ativista de Jornalismo Ambiental). Autora de “Por um Brasil Limpo” publicado em pílulas virtuais, nas redes sociais. 

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