Iconomia: USP desenvolve plataforma para promover “moedas criativas”

Moedas infográficas do designer Mac Funamizu

Você já ouviu falar em Iconomia? A nova teoria vem ganhando espaço e representa um marco para a Economia Criativa. O conceito faz uma troca de radical na palavra economia: o “eco” cede o lugar para o “eikon” e o que significava, do grego, “administração de uma casa”, ganha uma nova conotação direcionada a “ícone”.

Em entrevista ao site, o Doutor em Ciência Econômica Gilson Schwartz apontou que o foco dessa nova economia está na “valorização da capacidade humana de criar e manipular ícones como a mais autêntica e infinita fonte de valores tanto materiais quanto imateriais, intangíveis ou apenas imaginários”. Para ele, que também é professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP e criador da matéria universitária Introdução à Iconomia, o termo nasceu após se pensar nas revoluções tecnológicas da história e concluir que a emergência da Internet transformou essas revoluções  em algo, automaticamente, relacionado à informação, linguagem, letramento e capacidade crítica de decifrar criptocoisas.

Enquanto as criptomoedas são consideradas um “ativo financeiro”, Schwartz explica que a moeda criativa é uma versão digital das moedas sociais (sistema que viabiliza a Economia Solidária)

Agora, até mesmo a maneira como nos relacionamos com a tecnologia muda, o desafio econômico já não é da ordem das coisas e sim das relações entre as coisas, os seres vivos e os símbolos. As máquinas tornam-se mais humanas e os humanos, mais “maquinais” ou massificados. “Trata-se de uma nova economia política que integra pela valorização do simbólico todas as conquistas e aprendizados da história tecnológica no planeta Terra”, afirma o professor.

Uma das apostas da Iconomia são as moedas criativas, que se assemelham às criptomoedas (bitcoin, stellar, litecoin…) no quesito tecnológico e em sua lógica e infraestrutura, mas se diferem em todo o conjunto. Enquanto as criptomoedas são consideradas um “ativo financeiro”, Schwartz explica que a moeda criativa é uma versão digital das moedas sociais (sistema que viabiliza a Economia Solidária). Há uma diferença no design dos valores de uso cuja validade é certificada pelos participantes da rede pública de forma recíproca. O Brasil é uma referência internacional em moeda social, possuindo, além do real, aproximadamente 120 moedas alternativas. O exemplo mais famoso é a Palma, criada pela comunidade do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza.

Gilson Schwartz também coordena o projeto ICONOMIA, sigla para Incubadora de Conteúdos em Novas Mídias de Infra-estruturas Audiovisuais da USP. O grupo está desenvolvendo uma plataforma de Economia Criativa para promover a emissão, conversão e circulação de moedas criativas destinadas ao investimento nos campos artísticos, criativos, sociais e sustentáveis, e aderiu a missão de  “ressignificar o mundo das moedas virtuais para algo mais positivo à sociedade”.

Trata-se de uma monetização digital, que, apesar de já existir, não será mais feita em dinheiro físico ou cartões, e sim, segundo o coordenador, em chips impressos como tatuagens ou implantes quase imperceptíveis. “Dizer que uma moeda pode ser desenhada submetendo a pulsão especulativa a uma espécie de disciplina criativa ou sublimadora da fantasia da acumulação infinita soa a querer mudar a natureza humana! Mas talvez a rede esteja aí e em nós justamente para que mude, finalmente, a nossa própria natureza”, completou.  

“Só falta o pessoal dizer que ‘economia criativa’ é ‘marxismo cultural’. Isso foi criado pela Thatcher, a Madame de Ferro dos anos 80 do século passado! Por outro lado, seja pela esquerda, seja pela direita, tenho a impressão de que até agora fomos incapazes de renovar a visão comum do desenvolvimento criativo como a nova alavanca e acelerador de crescimento e inclusão”

Entretanto, não é simples resumir a complexidade do que as moedas criativas podem se tornar para a sociedade, uma vez que já há colecionadores de moedas sociais espalhados pelo mundo. “Creio que o princípio não-especulativo da moeda criativa é o seu aspecto mais crítico, estratégico, distintivo e decisivo”, pontuou.

Questionado sobre a falta de interesse dos partidos progressistas quando o assunto é Economia Criativa, Gilson Schwartz lembrou da dificuldade, que remonta ao período clássico do marxismo, em lidar com ideias (como as de Gramsci ou Benjamin) que aproximassem o marxismo da arte, da estética, da alta filosofia, da música e da cultura. “É curioso, porque o pessoal mais à direita que acusa a esquerda de marxismo cultural ignora o fato de que, na realidade histórica, a esquerda nunca deu atenção estratégica a essa dimensão digamos, não-ortodoxa ou, para muitos, demasiado ‘burguesa'”, diz.

“Só falta o pessoal agora dizer que ‘economia criativa’ é ‘marxismo cultural’. Isso foi criado pela Thatcher, a Madame de Ferro dos anos 80 do século passado! De outro lado, seja pela esquerda, seja pela direita, depois de conviver por 40 anos com nosso sistema educacional e cultural, tenho a impressão de que até agora fomos incapazes de renovar a visão comum do desenvolvimento criativo como a nova alavanca e acelerador de crescimento e inclusão. Lembro de um grande seminário, em 2002, já no final do governo FHC, quando dezenas de especialistas produziram um alentado estudo sobre a iminência de uma sociedade do conhecimento na fronteira do desenvolvimento capitalista global. De lá para cá, foram praticamente duas décadas perdidas. Já naquela época sabíamos que o novo petróleo é a informação, o verdadeiro pré-sal é feito de conhecimento, criatividade e invenção.”

Segundo Schwartz, a proposta da USP é, a partir da atividade de alunos de graduação, criar uma Universidade Aberta à Imaginação, à Fantasia e às Artes da Invenção (UAIFAI), onde uma Incubadora Fantástica (IF) servirá de campo de acesso a uma Galeria de Arte Dramática, Jogos e Experiências Transmidiáticas (GADJET). Na medida em que artistas, inventores e outras lideranças criativas estimularem novas trocas de informação, uma comunidade de prática eventualmente dará sentido e valor à circulação de uma moeda não-especulativa movida pelo desenvolvimento humano sustentável.

 

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