Empreendedorismo e aprendizado contínuo: universidade do futuro?

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por Déborah Oliveira em 19/02/2019.

Presidente do Instituto de Tecnologia de Israel‎ conta como país tem modernizado ensino na área e obtido resultados surpreendentes.

Foto: Shutterstock

Fundado em 1924, o Instituto de Tecnologia de Israel‎ – Technion é a universidade mais antiga de Israel. No início da sua atuação, a grade curricular era voltada apenas para engenharia e arquitetura e a primeira classe contava com 17 estudantes, sendo 16 homens e uma mulher. Com o passar dos anos, a entidade educacional, que é conhecida como o MIT de Israel, ampliou os temas e o jogo virou. O Technion conta agora com 54% de mulheres. “Não somos adeptos de cotas. Os que aqui ingressam são admitidos por mérito”, contou Peretz Lavie (foto), presidente do Technion, em conversa com a Computerworld.

Lavie indica que o Technion tem papel único hoje nacional e internacional e ele arrisca dizer que o Technion apoiou massivamente o progresso tecnológico israelense. Segundo ele, todo engenheiro de Israel e de grande parte da indústria de tecnologia local e global recebeu seu diploma no Instituto de Tecnologia de Israel‎. Grandes empresas, como Intel, eBay, HP e IBM têm parcerias com o Instituto.

Celeiro de startups

O país se converteu ao longo dos anos como um verdadeiro celeiro de startups e renomadas empresas de base tecnológica. Hoje, Israel tem mais de 90 empresas registradas na NASDAQ, consagrando-se como o terceiro país com mais empresas listadas na bolsa, e histórico de startups vendidas por bilhões, como foi o caso do Waze, comprado pelo Google por US$ 1,1 bilhão, e o ICQ, adquirido em 1998 pela America Online por US$ 400 milhões. Milhares de novos negócios foram estabelecido pelos ex-alunos do Technion, alguns dos quais são bem-sucedidos em escala global, observa Lavie.

Mas, afinal, como o Technion consegue ser um berço da inovação e reunir em seus 300 edifícios tantas mentes brilhantes? A base está nas atualizações constantes da prática de ensino, além de estratégias diferenciadas de integração.

Uma delas é o apoio aos alunos aprovados no processo seletivo. Eles ganham um ‘big brother’ ou uma ‘big sister’, uma espécie de mentor que ajuda os novatos a navegarem pelo campus e a ter sucesso em seus estudos. Outra iniciativa é o ensino de soft skills, que Lavie chama de ‘leadership skills’. “Educamos pessoas e não robôs. Por isso, essas competências são tão importantes”, revela.

A preocupação com a formação de talentos, portanto, é permanente, segundo Lavie, sobretudo por se tratar de uma ação conjunta com as universidades. Ele reconhece que essas instituições de ensino estão passando pelo desafio universal da reformulação dos empregos.

“Hoje, um talento não precisa mais aprender a resolver equações ou fazer cálculos. Tudo isso já pode ser feito por um smartphone, por exemplo. Como as universidades lidam com esse cenário? Como preparar estudantes para a nova revolução industrial, na qual muitas profissões irão desaparecer?”, destaca o executivo, acrescentando que as posições que são insubstituíveis pelas máquinas, não importam quão inteligentes sejam, exigem inteligência social, criatividade e percepção – características que são cultivadas no Technion.

E são essas ‘leadership skills’ a chave para fomentar o empreendedorismo, tão incentivado pela cultura israelense. “Empreender é uma arte e para isso é preciso intuição, comunicação, trabalhar em time e expressar as ideias”, observa ele. Para que os alunos desenvolvam o lado soft, o Technion fomenta diversas experiências hands on. “Não se pode ensinar apenas lendo livros. É preciso experienciar”, enfatiza ele.

Nesses momentos, os alunos aprendem a apresentar uma ideia, como chamar a atenção de investidores e a montar um time multicultural. “Um dos aspectos mais importantes para nós é assumir riscos. É preciso abraçar e entender a falha.”

Na prática

Lavie destaca que o Instituto Jacobs Technion-Cornell (JTCI), situado na Ilha Roosevelt, na cidade de Nova York (EUA), fruto da parceria entre as duas universidades, já atua com o olhar voltado para o futuro. Sua missão é fomentar a cultura de startup, mas conectar estudantes ao mercado. Toda a pesquisa e o ensino científicos estão profundamente engajados com domínios de aplicação que fornecem problemas reais, inspiradores, importantes e relevantes.

“Mudamos a forma de estudar. As aulas são em um estúdio, assim como fazem os arquitetos. Pessoas da indústria dividem o mesmo prédio com a academia, em um intercâmbio único. Essa é uma das formas de enfrentar os desafios do futuro”, contou.

Outra técnica colocada em prática é o flipped classroom, um novo formato que muda a ordem do ensino. Em vez de ir para a sala de aula e aprender com o professor, o aluno estuda a disciplina em casa e leva suas visões sobre o tema para discussão com os colegas e o mentor do grupo.

Aprendizado contínuo

Um dos temas que ganham destaque no setor educacional é o conceito de lifelong learning, ou o aprendizado ao longo da vida. Na visão de Lavie esse é um caminho que precisa ser trilhado pelas entidades educacionais. Para ele, o estudo concluído há 30 anos hoje já está obsoleto e é preciso mudar esse quadro. “A universidade precisa fazer parte disso. Esse é um papel futuro da universidade”, concluiu.

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