ECONOMIA CRIATIVA – Implicações e desafios para a política externa brasileira – Ministério das Relações Exteriores

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Nota: E conomia criativa: implicações e desafios para a política externa brasileira, resultado de pesquisa realizada por Mariana Madeira para sua tese do Curso de Altos Estudos, traz uma reflexão original sobre tema de relevância acadêmica e diplomática, constando hoje na agenda de organismos nacionais e internacionais encarregados de propor políticas e metas para a cultura; tema revelador de articulações antes insuspeitadas entre criatividade, inovação, tecnologias e práticas do capitalismo pós-industrial.

Para lidar com questões daí decorrentes, o texto inicia, com clareza e rigor, em cuidadosa revisão conceitual, o que garante o contorno nítido do objeto de pesquisa, em zona de intersecção de disciplinas e de conflito de interesses. O desenho teórico oferece uma moldura para o entendimento da rearticulação entre mudanças tecnológicas e econômicas que se intensificaram nas duas primeiras décadas do século XXI.

Economia criativa é um conceito novo, ajustado ao delicado equilíbrio entre imperativos econômicos e o patrimônio de uma nação; capta as mudanças radicais advindas da revolução digital e dirige seu foco para outro modo de capitalização da criatividade e do conhecimento. Considerando que nada escapa ao estatuto de mercadoria, torna-se cada vez mais necessário qualificar e mensurar aqueles bens intangíveis.

O conceito pode também ser pensado como correlato e ligado ao de desenvolvimento sustentável. Ambos têm como base e alvo patrimônios preciosos – a cultura e o meio ambiente – recursos de importância estratégica para o desenvolvimento, sobretudo para os países emergentes que os possuem em ricas reservas e em larga escala.

Diversidade cultural, inclusão social, sustentabilidade e inovação, os princípios norteadores dos planos de ação dos diferentes setores abarcados pela economia criativa, são valores que se agregam aos bens e serviços, garantindo-lhes maior competitividade. Em seus passos de método, Mariana Madeira explora uma bibliografia  especializada, lê e analisa cuidadosamente documentos, protocolos, telegramas e relatórios produzidos por órgãos locais ou multilaterais, além de criar suas próprias fontes de pesquisa, por meio de entrevistas com atores–chave, brasileiros e estrangeiros, encarregados da elaboração ou implementação de políticas culturais em seus países.

Outro ponto a realçar na obra em pauta é o aporte de dados estatísticos relacionados às indústrias criativas, setores que não conhecem recessão, ao contrário, apresentam-se como um dos mais dinâmicos e promissores da economia nacional, crescendo a taxas superiores às do PIB nacional e gerando em torno de quatro milhões de empregos, o que evidencia seu potencial de desenvolvimento econômico e social.

Esses cuidados metodológicos dotam o texto de confiabilidade e de um forte poder de convencimento. A perspectiva comparativa leva ao exame de políticas e ações nos diferentes países que fizeram da economia criativa objeto de especial atenção de seus governos como Austrália, China, África do Sul, Índia, indo inclusive além ao identificar a gênese do conceito no Reino Unido e ao examinar e avaliar tais iniciativas.

Vale dizer que cada um desses países enfatizou aspectos singulares do seu patrimônio que poderiam marcar uma diferença para melhor inseri-los no mercado de bens simbólicos. A Austrália parece ser uma das experiências mais bem sucedidas, onde em primeira mão, foram elaboradas políticas visando setores como mídias interativas, jogos eletrônicos e entretenimento em geral. O governo australiano investe ainda em gastronomia, moda, design, arquitetura e, com sucesso, na promoção da arte aborígine.

A China conheceu, nas últimas décadas, crescimento interno considerável da demanda por informação e entretenimento digital e tornou–se o maior exportador mundial de produtos criativos. Na África do Sul, a ênfase é posta no setor do audiovisual, particularmente na música, mas também em publicações e no artesanato.

A Índia, em muitos aspectos comparável ao Brasil, investe em soft power por meio, entre outros, de projetos em tecnologias tradicionais. É conhecido seu desempenho em produção cinematográfica, assim como no de tecelagem, de design e moda, recentemente incluídos no seu plano de desenvolvimento. O que se pode constatar da comparação entre os diferentes países é que esse método permite avaliar a eficácia dos resultados obtidos e propor uma via singular para o Brasil.

Ao apontar os setores criativos brasileiros mais competitivos, a autora oferece um roteiro, um mapa da mina, riqueza e diversidade dos nossos recursos, insistindo que essa oportunidade, hoje, não pode ser desperdiçada. Mais que nunca são necessários critérios para identificar no repertório cultural, no front da inovação ou no arcabouço das tradições, parcelas do patrimônio criativo que tenham garantido retorno econômico e social.

É conhecido o desempenho brasileiro em audiovisual, particularmente música, publicidade, telenovela; festas populares, incluindo turismo e gastronomia; moda, artesanato, entre outras criações como o design e a moda, a manipulação de ervas e sementes, habilidades em tecelagem, rendas e bordados. Outro ponto forte do discurso da autora é sua insistência em ver a criatividade dos brasileiros – sua flexibilidade, sua capacidade de improvisação e habilidade, sua matriz humana aberta às misturas e ao afetivo – transformada em competência, bens e serviços voltados para a dinâmica que o momento exige, quando os olhos do mundo se voltam para o Brasil, país sede de importantes eventos internacionais da década.

Mariana Madeira aceita o desafio de pensar, no presente, a viabilidade de um aproveitamento da criatividade e do conhecimento, valores escassos e de grande demanda nas sociedades contemporâneas, motores da inovação, capazes de impulsionar setores com alta perspectiva de crescimento. Em tom propositivo, o trabalho contribui para valorizar a cultura e abre uma via nova de ação para a política externa brasileira ao evidenciar o quanto nossos recursos culturais e ambientais são estratégicos tanto para o desenvolvimento interno quanto para imprimir uma nova dinâmica nas relações internacionais.

O Brasil, detentor de grandes reservatórios daqueles recursos, vê-se em posição vantajosa para ampliar sua pauta de exportações. Ao Itamaraty, em conjunto com outras instituições nacionais e organismos internacionais, cabe um papel de protagonista, visando à valorização dos produtos brasileiros no mercado global, renovando a diplomacia cultural, fazendo com que ela possa somar-se à tendência de reposicionamento do Brasil, no cenário atual como ator soberano.

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