Economia Criativa, Democracia e Cultura da Paz.

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por Domingos Leonelli em 11/10/2018.  

Por que Donald Trump e Jair Bolsonaro defendem a velha indústria de armamentos, alimentando a cultura de ódio? O que tem a ver Economia Criativa com a política, o processo democrático e a cultura da paz? Aparentemente nada, de fato muito.

Na verdade, as clássicas relações entre infraestrutura econômica e superestrutura política estão muito mais aprofundadas na modernidade, na atual sociedade do conhecimento. Coisas que pertenciam à superestrutura política, como a cultura, passaram a fazer parte da infraestrutura econômica como um dos seus setores mais dinâmicos.

Comecemos pelo começo que é sempre o melhor caminho. As atividades ligadas, direta ou indiretamente, à Economia Criativa que se relacionam com a cultura, a ciência e a tecnologia, ao Turismo têm, como insumos principais, o talento criativo e o conhecimento. E, como produtos, têm os filmes, as músicas, os espetáculos de teatro e de dança, as novelas, a mídia (notícias, variedades e as derivações dos três primeiros), os livros, as revistas, as publicações, o artesanato, a arquitetura, a publicidade, os museus, os teatros, os cinemas. Tudo isso na área da cultura.

Também têm o design de moda, móveis, utensílios domésticos e profissionais, computadores, celulares, máquinas na área industrial; a pesquisa científica e tecnológica e suas milhares e milhares de aplicações nas áreas de saúde, de educação, de agricultura, da maricultura e dos próprios equipamentos que servem à cultura e às artes.

As viagens, os roteiros, os transportes, a hospedagem, a gastronomia que, no turismo, geram um a cada nove empregos no mundo. Sites e aplicativos de busca de alojamento, como Airbnb, Booking, Rentals Tripadvisor, demonstram o grau de integração do Turismo com Economia Criativa.

O fato é que o conjunto dessas atividades e seus produtos intangíveis já superam, em valor agregado, muitos setores industriais. Em 1998, o então primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, já declarava que o rock’n’roll gerava mais divisas para a Inglaterra do que suas indústrias siderúrgicas. O copyright norte-americano já supera a produção de fármacos e outros setores industriais.

Mas volta a pergunta: o que tem a política, a democracia e a cultura de paz a ver com isso? Tudo, respondo agora.

Os primeiros governos e governantes de países capitalistas a adotarem a Economia Criativa como estratégia de desenvolvimento foram os governos socialistas da Austrália, da Inglaterra, da Suécia, da Dinamarca. Foi no governo democrata de Barack Obama, nos EUA, que o Vale do Silício conheceu o seu auge de prestígio e, até, de uma certa hegemonia na economia norte-americana. E é na onda de abertura econômica e política da China (mesmo considerando o fato de ser um país com um partido único, embora com 80 milhões de membros) que a inovação, como parte da Economia Criativa, toma proporção e velocidade nunca vistas. No caso da China, associa-se à perspectiva de sustentabilidade, da economia verde em que o país, agora, se insere, pretendendo se constituir em uma liderança mundial nas questões do meio ambiente. Ambivalente do ponto de vista político, Emmanuel Macron marca seu lado progressista anunciando um investimento de mais de 40 bilhões de dólares em startups na França.

 Ainda que muito da inovação tecnológica tenha surgido nas indústrias bélicas para usos militares, tanto na produção de hardwares como na de softwares, os setores mais dinâmicos da Economia Criativa geram produtos culturais. E é claro que muitos desses produtos culturais serviram às políticas de guerra, principalmente na Guerra Fria. Quem não se lembra dos filmes norte-americanos em que comunistas só faltavam comer criancinhas? E, mesmo hoje, a internet e as redes sociais são utilizadas em processos eleitorais para eleger figuras como Trump e Bolsonaro.

Entretanto o que é mais relevante e profundo é que essas indústrias culturais não dependem de guerras ou da cultura de ódio para crescerem e se multiplicarem, como ocorre com as indústrias do poderosíssimo complexo industrial-militar norte-americano ou alemão, que envolvia não somente as fábricas de armas, mas grande parte da indústria siderúrgica, da indústria automobilística e, mais recentemente, da indústria de construção civil para a reconstrução das cidades destruídas.

São empresas e produtos que crescem mais e aumentam seus lucros em ambientes de paz e de livre mercado, de preferência com democracias sólidas e estáveis. De certa forma incompatíveis com xenofobias, belicismo e nacionalismos exacerbados típicos de países em guerra. Obviamente, existem exceções, como Israel, que prosseguem na utilização dos avanços tecnológicos para a dominação e a guerra. Antes da ascensão das indústrias criativas, o complexo industrial-militar era dos mais lucrativos do mundo.

E, por incrível que possa parecer, quem se ensaia como campeã da globalização, da abertura de mercados e da sustentabilidade ambiental é a China de Xi Jinping com a Rota da Seda e sua inserção na Conferência do Clima que os EUA estão abandonando.

Assim, apesar do avanço político da direita no mundo com as velhas bandeiras das indústrias produtoras de armas, produtos físicos dependentes de matérias-primas, como o petróleo e o ferro, surgem aquelas que são, hoje, a maiores empresas do mundo, como Apple, Google, Facebook, Amazon, Netflix, Tencent, Baidu e Alibaba, produzindo ou comercializando informação, design, produtos culturais com tecnologia cada vez mais sofisticada. E, com elas, um novo mercado de trabalho, uma sociedade informatizada, novas formas mais pacíficas e inteligentes de dominação e, também, novas formas de resistência ao capitalismo.

Capitalismo e socialismo, aliás, mais criativos.

Domingos Leonelli.

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