Como a Webcitizen está usando a tecnologia para reinventar o exercício da cidadania no país

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 – 15 de setembro de 2014
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O VoteLab, projeto Webcitizen, usa a ciência e a tecnologia para buscar os candidatos com mais afinidade com o usuário.

Mariana Castro, que assina esse texto, está lançando Empreendedorismo Criativo (Portfolio/Penguin, 199 pgs), onde conta em detalhes o case da Webcitizen e mais oito histórias completas sobre novos empreendedores brasileiros e seus empreendimentos criativos. Compre. Leia. Recomende.

Antes mesmo dos protestos que tomaram as ruas do país em meados de 2013, a Webcitizen já havia identificado a falta de representatividade política como um problema não só no Brasil, mas no mundo. Tanto que fez disso seu principal negócio: promover engajamento político. A ideia é aproximar as pessoas de quem as representam. E para isso, usa a tecnologia, o design e a comunicação para criar plataformas que sirvam de ferramenta para essa conexão.

Perto das eleições de 2014, a empresa criada em 2009 pelos mineiros Helder Araújo, Fernando Barreto e Paulo Vasconcelos acaba de lançar dois novos projetos. Um deles, em parceria com a Enox On-life, de mídia online, é o aplicativo Política de Boteco, que leva a discussão política para a mesa do bar.

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O Política de Boteco leva aos bares as discussões dos projetos de lei mais controversos do Congresso. E entregará a deputados e senadores os resultados dos debates que acontecem no aplicativo.

O aplicativo mostra projetos de lei polêmicos para promover o debate entre jovens sobre as ideias propostas por senadores e deputados. Com 50% dos votos a favor e 50% contra, um dos projetos de lei mais polêmico é o do deputado Arnaldo Faria de Sá, do PTB, que quer regulamentar bingos e caça-níqueis. Ou ainda o que propõe a obrigatoriedade do ensino do hino nacional em todas as escolas, públicas ou particulares, inclusive de nível superior, do senador Paulo Duque, do PMDB. Um relatório com os comentários de quem participou da conversa será entregue ao Congresso.

O outro, que está em fase de captação de recurso na plataforma de financiamento coletivo Catarse, é o VoteLab. A plataforma faz um mapa personalizado para mostrar quais são os candidatos que têm a maior afinidade com você. A partir de um questionário, um algoritmo faz a avaliação por afinidade, a partir das ideias que o candidato propõe. De acordo com os idealizadores, a ideia é ter argumentos mais científicos e assim gerar informações mais relevantes para a sociedade e para o Congresso.

Para isso, foi feita uma parceria com um pesquisador do Caltech, Davi Ortega, para escrever umalgoritmo que usa uma fórmula matemática e mostra quem são os parlamentares com maior afinidade com o eleitor.

Este vídeo explica como o VoteLab funciona.

“Os dois projetos têm como objetivo aproximar os cidadãos da política. Mais que isso, o de provocar o cidadão a discutir temas e problemas que afetam diretamente a vida de todos nós”, diz Fernando Barreto.

Ambos são inspirados no Vote na Web, primeiro e mais relevante projeto autoral da Webcitizen, lançada oficialmente em 2009, no primeiro TEDx do Brasil, em São Paulo. Com o objetivo de aproximar cidadãos das decisões políticas tomadas no Congresso, a plataforma disponibiliza mais de cinco mil projetos de lei de deputados e senadores.

Certa vez, um deputado entrou em contato com a equipe do Vote na Web pedindo para tirassem do ar um projeto de lei de sua autoria, que vinha enfrentando grande rejeição do público. Como resposta, ouviu que nesse caso seria melhor ele mesmo tirar a ideia da pauta no Congresso

A equipe do Vote na Web seleciona e “traduz” os projetos de lei para uma linguagem simples e fácil. Embora o voto do público seja apenas simbólico, já que não interfere na aprovação da propostas, ele funciona como ótima referência para os políticos saberem se suas ideias estão ou não em sintonia com que o pensa o seu eleitorado. Além disso, serve com um poderoso observador de propostas eleitoreiras e estapafúrdias, que encontram grande rejeição. Certa vez, um deputado entrou em contato com a equipe do Vote na Web pedindo para tirassem do ar um projeto de lei de sua autoria, que vinha enfrentando grande rejeição do público. Como resposta, ouviu que nesse caso seria melhor ele mesmo tirar a ideia da pauta no Congresso.

Além de votar sobre o que pensa de cada projeto de lei, o usuário tem acesso ao histórico do parlamentar. Também encontra por categoria os projetos mais votados, os mais polêmicos e os mais comentados. As propostas do deputado Jean Wyllys, do PSOL, lideram o ranking das mais votadas. A primeira, sobre a regulamentação do comércio de maconha, recebeu 24 mil votos. A segunda, de modificar o Código Civil para reconhecer o casamento civil e a união estável entre homossexuais, já teve mais de 12 mil votos. Nos dois casos, a maioria é a favor. Além de mostrar e organizar os projetos de lei para o cidadão, a Webcitizen envia periodicamente um relatório do Vote na Web aos parlamentares, informando sobre a participação dos usuários: como estão votando, o que comentam…

WEBCIDADANIA

O lançamento do Vote na Web surgiu da necessidade dos sócios em ter um projeto mais autoral para explicar o que afinal fazia a empresa que estavam tentando criar. Em 2009, o conceito de webcidania ainda era novo. Helder e Fernando apostavam na ideia de passar a olhar o consumidor como cidadão, e não o contrário. Achavam que escutar as necessidades das pessoas e mostrá-las poderia ajudar governos a atender a essas demandas. Queriam gerar engajamento cívico, usando o conhecimento em pesquisa, tecnologia, design e comunicação.

Helder e Fernando apostavam na ideia de passar a olhar o consumidor como cidadão, e não o contrário. Queriam gerar engajamento cívico, usando o conhecimento em pesquisa, tecnologia, design e comunicação

Com esse discurso a Webcitizen chegava ao mercado, em uma época em que empresas e instituições começavam a enxergar na web um importante canal de comunicação para se relacionar melhor com seu público. Mas não estava fácil emplacar a ideia. Em vez de insistir na tentativa de convencer os clientes de que aquilo era bom, resolveram ter o que mostrar e tornar as ideias que tinham na cabeça em algo tangível.

Com o dinheiro que ganhavam de outras unidades de negócio como consultoria e pesquisa, investiram na execução do Vote na Web. Seis meses depois de entrar no ar, a plataforma foi apresentada no evento Gov 2.0 Summit, em Washington e, logo depois, a convite da ONU, em um evento sobre webcidadania em Barcelona. Ao longo dos anos, continuou sendo apresentado em conferências internacionais, como case no segmento. Mesmo assim, o Vote na Web ainda não gera lucro. Para Helder, a Webcitizen é uma empresa que deixará um legado.

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Tudo na nuvem: conectividade, pesquisa, tecnologia e comunicação gerando engajamento.

Os serviços que oferece são desenvolvimento de plataformas digitais para coletar e analisar dados comportamentais na busca de oportunidades e soluções que impactarão, positivamente, a sociedade como um todo. Também trabalha com produção e organização de conhecimento e curadoria de eventos cujo objetivo é reunir o público em torno de um tema inspirador, como fez no TEDx São Paulo e Amazônia, organizados por Helder. Também diversifica as fontes de receita com pesquisa e consultoria, a exemplo do trabalho que fez para o governo de Minas, o Movimento Minas.

COMO COMEÇOU

Fernando cresceu ouvindo do pai que deveria ter um negócio seu. Veio daí a vontade de ser empreendedor. Ainda na época em que trabalhava na área de criação de uma agência de publicidade, onde atuou também em marketing político, começou a olhar o mundo em busca de oportunidades. Corria para entregar os jobs da agência para ter algumas horas livres para pesquisar, conversar com gente inspiradora e formatar ideias. Queria de alguma forma contribuir para estabelecer um diálogo entre governo e cidadãos. Mas não fazia ideia de como transformar isso em um negócio.

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Fernando Barreto e Priscila Cortat, diretora de planejamento, no lançamento do Política de Boteco

Um amigo publicitário comentou que tinha cruzado outro mineiro da terra de Fernando, Divinópolis. Era Helder, com quem Fernando já havia trabalhado muito tempo atrás. Estavam dez anos sem se ver. Mesmo assim, ele achou que seria interessante conversar com o então sócio da Bola, empresa da Box 1824, que fazia pesquisa e desenvolvimento de produtos, cujo foco era comportamento jovem.

Foi assim que os dois se encontraram em 2008, depois do convite de Fernando para tomarem um café, e das muitas conversas sobre ideias e inquietações, começava a nascer a Webcitizen. Os dois juntaram a experiência de Fernando com marketing politico e a de Helder em tecnologia, design e, principalmente, comportamento jovem. Os dois sabiam que gerar engajamento político só seria possível com o envolvimento da parcela mais jovem da população. Ou seja, dos agentes da mudança.

POOL DE EMPRESAS

A Webcitizen compõe uma espécie de pool entre empresas que trabalham em um esquema colaborativo. Todas funcionam no mesmo endereço da Vila Madalena, onde fica a bela casa com gramado para onde dão as salas com porta de vidro. Embora cada uma tenha seu próprio negócio, além do espaço elas podem dividir também projetos e o tempo dos profissionais. É uma forma inteligente de minimizar custos fixos e gerar novas oportunidades de negócio.

Além da Webcitizen, o pool é formado pela Newsmonitor, a Black-Key e o Jardim Digital, onde funciona o coworking. Além das quatro empresas do pool, há outras instaladas ali, como o portal de boas notícias, As Boas Novas, de Igor Botelho e a mulher, Carol Romano.

A Newsmonitor é uma plataforma de busca, monitoramento e compartilhamento de notícia. Por meio dela, o usuário, que precisa pagar uma assinatura para ter acesso ao serviço, consegue acompanhar notícias a partir de 25 mil fontes nacionais e internacionais, pode criar monitoramento automático de assuntos de seu interesse, compartilhar com sua equipe links e referências, fazer estudo de tendência e saber quais são as notícias que mais repercutem nas redes. Na Newsmonitor, Helder tem a seu lado João Cavalcanti, sócio da Box 1824, onde também já havia trabalhado.

Tendo como sócios um grupo de empreendedores, a Black-tie é um fundo de investimento. De acordo com os fundadores, o objetivo é promover o encontro entre empreendedores, pesquisadores e investigadores para viabilizar a criação de novos negócios. O foco são empresas de tecnologia.

Helder é o único sócio das quatro empresas, que tem composições societárias diferentes. O pool atende ao desejo do mineiro: deixar um legado para o mundo criando soluções baseadas na união da tecnologia, educação e design.

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Mariana Castro é jornalista e autora do livro Empreendedorismo Criativo. Trabalhou no Grupo Estado e na Editora Abril, antes de ir para o jornalismo digital. No portal iG, atuou como editora-chefe do Último Segundo e editora-executiva de Política, Internacional, Cidades e Educação. Atualmente é diretora da F451, que publica o Gizmodo Brasil.

Fonte: www.projetodraft.com

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