Cidades criativas inspiradoras

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por Gina Gulineli Paladino 08/03/2018.

As cidades mais competitivas do mundo estão cada vez mais dominadas por inovações que substituem recursos naturais não renováveis pelos talentos do ser humano como insumo básico das suas economias. Assim sendo, a vitalidade empreendedora e criativa das pessoas se transforma no ativo essencial que garante a competitividade das cidades e, por consequência, a qualidade de vida das comunidades no mundo globalizado.

Neste contexto, as estratégias de desenvolvimento das cidades visando posicioná-las no patamar das principais cidades inovadoras do mundo, estão focadas em três principais objetivos: (a) transformar com mais velocidade os seus talentos criativos em empreendedores de sucesso; (b) atrair para a cidade novos empreendedores, negócios e investimentos inovadores e da Economia Criativa; e (c) fazer crescer os empreendimentos já existentes com mais valor agregado.

Empresas nascentes de base tecnológica e inovadoras, mão de obra mais educada e qualificada, ampla e eficiente infraestrutura de conectividade, produtividade elevada e renda média alta, bem como qualidade de vida são algumas das principais características das cidades contemporâneas desenvolvidas em todo o mundo que tem sua economia baseada em serviços de alto valor agregado. Sendo os segmentos da Economia Criativa os mais relevantes.

A Economia Criativa engloba um conjunto de setores dinâmicos, que têm mais capacidade de criar empregos, principalmente entre os jovens, e que, se bem articulados e apoiados, tornam-se propulsores de inovação e da ampliação da capacidade produtiva do conjunto da economia.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esportes (DCMS) britânico considera Economia Criativa aquela em que “as atividades têm sua origem na criatividade, na perícia e no talento individual e que possuem um potencial para criação de riqueza e empregos através da geração e da exploração de propriedade intelectual”.

Além das grandes cidades que avançaram rapidamente nesta área em função de suas excelentes infraestruturas, base cultural e milhares de recursos humanos talentosos e criativos – Londres, Nova Iorque, Paris, Berlim, etc., alguns projetos de grande impacto econômico e social das cidades de Barcelona, Montreal, Lisboa, Buenos Aires, Medellín, entre outros, também merecem destaque. Estes projetos estão sendo facilitados devido a ambientes urbanos criados especialmente para abriga-los.

Segmentos da Economia Criativa.

Os segmentos mais relevantes do núcleo central da Economia Criativa encontrados na maioria dos estudos sobre o tema são os seguintes:

  • Audiovisual (produção, desenvolvimento de conteúdo, edição, fotografia, programação, transmissão, distribuição e exibição);
  • Arquitetura (design e projetos de edificações, paisagens e ambientes, planejamento e conservação);
  • Artes Cênicas (criação artística, produção e direção de espetáculos teatrais e de dança);
  • Design (design gráfico, de multimídia e de móveis);
  • Editorial (edição de livros, jornais, revistas e conteúdo digital);
  • Expressões Culturais (criação de artesanato, museus, bibliotecas, folclore);
  • Moda (desenho de roupas, calçados e acessórios);
  • Música (gravação, edição e mixagem de som, criação e interpretação musical);
  • Publicidade (publicidade, marketing, pesquisa de mercado e organização de eventos);
  • Patrimônio e Artes (serviços culturais, ensino superior de artes, gastronomia, museologia e produção cultural);
  • Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC (desenvolvimento de software, sistemas, consultoria em TI e robótica).

Cada um dos segmentos econômicos citados acima engloba um conjunto de atividades que formam diversas cadeias produtivas de fornecedores de insumos de produtos e serviços e demais apoios correlatos.

Indicadores urbanos no Brasil, São Paulo e Curitiba.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FECOMERCIOSP) divulgou pela primeira vez no Brasil, em 2012, o Índice de Criatividade das Cidades. O indicador tem como objetivo fornecer informações relevantes para a adoção de medidas públicas, focadas na criatividade, capazes de gerar avanços efetivos no nível de competitividade e na economia dos municípios.

Para chegar ao índice, foram considerados fatores econômicos, sociais e de potencial criativo das 50 maiores cidades do país ao longo de 2011. Este indicador confirma que as cidades com melhores condições socioeconômicas têm maior potencial para atrair e reter talentos criativos. Por outro lado, algumas cidades com grande potencial criativo entre as pesquisadas não aproveitam esta condição para alavancar o desenvolvimento econômico ou gerar melhorias em qualidade de vida e benefícios para sociedade.

A Fundação do Desenvolvimento Administrativo (FUNDAP) do Município de São Paulo divulgou em 2011 um estudo denominado “Economia Criativa na Cidade de São Paulo: Diagnóstico e Potencialidade” no qual demonstrava que em 2009 a Economia Criativa já era responsável por 3% de todo o emprego formal da cidade e sua dinâmica de desenvolvimento era mais acelerada do que a dos demais setores.

Em 2013 o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) realizou uma pesquisa que identificou cerca de 22 mil trabalhadores formais empregados nas empresas criativas em Curitiba, sendo 3.800 da classe criativa. O salario médio dos profissionais criativos do mercado formal de trabalho da cidade foi de R$ 3,6 mil (2013), contra um valor médio de todos os setores econômicos de R$ 2,8 mil (2014).

Em outubro de 2015, a Agência Curitiba de Desenvolvimento (ACD), em parceria com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), elaborou o primeiro mapeamento da Economia Criativa na cidade de Curitiba. O resultado encontrado em termos do número total de estabelecimentos formais foi de 22.009 (quinta posição entre as capitais), distribuídos em todos os bairros da cidade, tais como, Centro – 2.510, Água Verde – 1.111, Portão – 730, Boqueirão – 700, Batel – 673, Cajuru – 634, etc. Considerando esta mesma metodologia a cidade de São Paulo contava com um total de 162.400 estabelecimentos, Rio de Janeiro – 61.588, Belo Horizonte – 25.330, Porto Alegre –20.491, Brasília –20.482, etc.

Segundo a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN) no período de 2013 – 2015 houve um crescimento do número de profissionais criativos do mercado formal de trabalho no Brasil, sendo 850 mil profissionais criativos que contavam com um salário médio de R$ 6.270,00, mais de duas vezes e meia a remuneração média de todos os empregados formais brasileiros (R$ 2.451,00). Isso devido à alta qualificação e à especificidade do trabalho requerida por esta área. Este estudo também mostrou que os segmentos da Economia Criativa contavam com 239 mil estabelecimentos formais e que a participação do PIB criativo estimado no PIB brasileiro cresceu de 2,56% para 2,64% nesse período. Como resultado, a área criativa gerou uma riqueza de R$ 155,6 bilhões para a economia brasileira em 2015.

Experiências internacionais inspiradoras.

Novas políticas públicas e principalmente parcerias público privadas têm sido implementadas em diversas cidades em todo o mundo visando estimular o surgimento de projetos urbanos que sustentem empreendimentos criativos.

Destacam-se algumas delas: definições apropriadas do zoneamento urbano, revitalização de antigas áreas e construções degradadas, fortalecimento de centros culturais, grandes espaços para empreendimentos criativos, galerias de arte, bibliotecas informatizadas, salas de cinema e demais empreendimentos de audiovisual, museus, ampla infraestrutura de conectividade, mobilidade diversificada e eficiente, áreas verdes, entre outras.

  • LX FACTORY: o Soho de Lisboa
Foto da entrada da LX FACTORY

No ano de 1846 a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, um dos mais importantes complexos fabris de Lisboa, se instala no bairro de Alcântara. Nos anos subsequentes esta área industrial de 23.000m2 foi ocupada pela Companhia Industrial de Portugal e Colonias, tipografia Anuário Comercial de Portugal e Gráfica Mirandela. A partir da segunda metade do século XX, com a diminuição das atividades fabris, o espaço foi se degradando.

Somente em 2005, após décadas de abandono desse bairro, começaram as transformações por meio da instalação de centenas de empresas de design, de artes e publicidade, lojas, restaurantes e livrarias. A partir de 2008 esta região, batizada de LX FACTORY, se transformou em uma geradora de riqueza e ótima opção de passeio, gastronomia e consumo.

Lá também existe um espaço de coworking que abriga empresas dos segmentos criativos e aos domingos tem o LX Rural, uma feira de produtos orgânicos e biológicos disponibilizados diretamente dos produtores.

LX FACTORY vem se transformando em um lugar da moda que atrai principalmente a juventude local, os profissionais criativos e turistas. O horário de abertura é quase o dia inteiro e os restaurantes ficam abertos até tarde. As lojas são focadas em objetos vintage, fashion, novos conceitos, etc.

Uma parte de Lisboa que durante anos permaneceu escondida foi devolvida à cidade na forma de uma ilha ocupada por empresas e profissionais criativos e que também tem sido palco de acontecimentos nas áreas da moda, publicidade, comunicação, multimídia, arte, arquitetura, música, etc, gerando uma dinâmica de atração a um número crescente de visitantes.

LX FACTORY se apresenta como uma “fabrica de experiências onde se torna possível intervir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num lugar que é de todos, para todos.”

  • Time Out Market Lisboa.

Um novo conceito foi criado em 2014 pela equipe da revista Time Out Portugal, apenas para abrigar as melhores ideias e negócios criativos de Lisboa: o Time Out Market Lisboa, localizado no tradicional bairro do Caís do Sodré. Os empreendimentos podem ficar no mercado, por períodos de uma semana a três anos. Ou seja, o objetivo do projeto é acolher o melhor da cidade debaixo do mesmo teto.

Foto panorâmica parcial do Time Out Market Lisboa.

São 24 restaurantes (sendo três chefes com estrelas Michelin), 8 bares, mais de uma dezena de espaços comerciais, coworking, sala de 400m2 para espetáculos, tudo com o melhor de Lisboa: o melhor bife, hambúrguer, sushi, leitão pururuca, etc, acompanhados por alguns vendedores de carnes, peixes, frutas, flores e vinhos mais conhecidos (e antigos) da cidade.

Em dez mil metros quadrados de mercado há sempre muita coisa acontecendo. Muito mais do que comida e bebida. Concertos e eventos no Estúdio Time Out, cursos de culinária na Academia Time Out e todo o movimento do food hall.

O edifício e mesmo o bairro do Cais do Sodré, antes um ambiente urbano deteriorado, se transformaram num fenômeno de visitantes, de dia e de noite. Foram 3,1 milhões de pessoas em 2016. Onde antigamente se reuniam os melhores comerciantes da cidade, hoje reúnem-se os melhores restaurantes e artistas. Um belo projeto de reinvenção urbana e de grande sucesso econômico e cultural.

Paris: Station F

Maquete eletrônica da Station F

‘Paris tem a maior incubadora de startups do mundo’. Esta foi a notícia estampada nos jornais em 30 de junho de 2017 quando da inauguração da ‘Station F’, em Paris. Localizada em um edifício ferroviário da década de 1920, o espaço totalmente reconstruído, poderá abrigar até 1.000 empresas inovadoras ligadas à tecnologia.

Station F terá seus próprios programas de aceleração de empresas, mas também permitirá que algumas empresas referência na área, como Facebook, Microsoft, Amazon e Zendesk, promovam seus próprios programas.

Apesar da presença do presidente francês Emmanauel Macron na festa de inauguração, o projeto foi idealizado e financiado pelo bilionário Xavier Niel, fundador da companhia de telecomunicações Free (grupo Iliad). A ideia de sua criação ocorreu em 2013, quando Niel percebeu que Paris tinha um ecossistema de startup muito grande, mas não tinha espaços apropriados para abriga-las, como em outras grandes cidades do mundo.

Assim sendo, foi construído um espaço emblemático neste ecossistema para proporcionar oportunidades aos jovens empreendedores talentosos e criativos que muitas vezes não encontram lugar e recursos que caibam nos seus orçamentos.

O prédio da Station F possui 34.000 metros quadrados e a incubadora conta com mais de 3 mil computadores, além de espaços de reunião e convívio, quatro cozinhas, um auditório, dois bares e um restaurante. Funciona 24 horas por dia e sete dias por semana.

  • Buenos Aires: revolução urbana criativa
Mapa dos bairros de Buenos Aires com destaque para os Distritos Criativos

Buenos Aires passou por uma verdadeira revolução no transporte público, com o BRT, bicicletas públicas e muitos projetos que transformaram a cidade na última década. Mais recentemente, apesar de o país viver um momento complexo na política e na economia, a cidade elegeu a Economia Criativa, especialmente o design, para induzir o desenvolvimento de alguns bairros menos favorecidos, por meio do planejamento urbano, econômico e social de longo prazo.

Foram definidos quatro bairros, chamados de Distritos Criativos – tecnológico, audiovisual, de design e das artes – a partir de projeções de setores que já apresentavam algum peso econômico. No distrito tecnológico, por exemplo, não havia empresas de tecnologia, agora são quase 300.

A discussão geral da Economia Criativa deve fazer parte dos novos modelos e instrumentos de planejamento urbano das cidades na medida em que pode agregar simultaneamente as dimensões econômica e social, especialmente nos bairros menos favorecidos. O estudo citado acima da FUNDAP/SP demonstrou claramente esta oportunidade para o caso da cidade de São Paulo. A experiência que vem sendo implantada em Buenos Aires segue este modelo e por isto precisa ser acompanhada.

  • Medellín: da mais violenta a mais inovadora
Foto da Biblioteca España instalada no alto de uma favela

Nos anos 90 Medellín viveu um ápice de violência urbana principalmente devido aos conflitos com o narcotráfico. A média de homicídios chegou a quase 7mil por ano. Para reverter a situação, junto com o combate armado, vieram também os educadores que impulsionaram os projetos tecnológicos, pedagógicos, culturais, urbanísticos, etc.

A cidade passou a investir, sempre em parceria com empresas e instituições, em infraestrutura (escadas rolantes a partir dos morros, teleféricos e metrô), museus, bibliotecas informatizadas, escolas de qualidade nos bairros mais pobres, hortas comunitárias sustentáveis, projetos de arquitetura e urbanismo, etc.

Paralelamente foi realizado um programa de inovação (Ruta N) destinado a capacitação em larga escala de empreendedores em negócios digitais, Economia Criativa e biotecnologia, além de estimular sinergias entre empresas e a academia.

Outros instrumentos importantes foram criados tais como aceleradoras de inovações e ideias e acesso a capital inovador. Em 2013 Medellín recebeu o título de “Cidade Mais Inovadora do Planeta”, segundo o Wall Street Journal, também graças a parcerias do governo com empresas e instituições que vêm fomentando a inovação e criando soluções para problemas clássicos da região.

Apesar de ainda terem muito a fazer as desigualdades econômica e social de Medellín estão diminuindo e o índice de homicídios caiu radicalmente. Além disso, os projetos da Economia Criativa e culturais avançam de forma sustentável, inclusive nas comunidades.

O Brasil precisa aprender várias lições com Medellín que em pouco mais de duas décadas ganhou um novo destaque internacional e hoje atrai milhares de turistas e visitantes que querem conhecer suas experiências inspiradoras.

Fonte: www.futuri9.com

Gina Gulineli Paladino, Economista – Formada pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, com cursos de extensão, especialização e mestrado no Brasil, França, Japão e Suíça. Histórico profissional focado no planejamento e gestão de programas e projetos nas áreas de tecnologia, inovação, indústria, empreendedorismo, cooperação universidade/empresa e economia criativa. Trabalhou nos setores privados e públicos nas esferas federal, estadual e municipal. Foi professora e exerceu as funções de Coordenadora de Ciência e Tecnologia no Governo do Estado do Paraná; Diretora da Incubadora Tecnológica do TECPAR-PR; Diretora do Instituto Euvaldo Lodi Nacional na Confederação Nacional da Indústria – CNI, em Brasília; assessora da presidência da Federação das Indústrias do Estado do Paraná – FIEP; Superintendente da Agência Brasileira de Inovação – FINEP do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI, no Rio de Janeiro, e Presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, da Prefeitura Municipal de Curitiba – PMC, entre outras. Atualmente é consultora, palestrante, professora e conselheira titular do Conselho Regional de Economia do Paraná – CORECONPR. Participa do Grupo Mulheres do Brasil, Comitê Paraná, como colíder no tema Empreendedorismo Feminino. ginagp@uol.com.br.

 

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