Charles Siqueira

Charles Siqueira é pernambucano, de adolescência baiana e vive no Rio de Janeiro há três décadas. Graduado em Gestão Ambiental, sua múltipla formação inclui Letras, Dança Contemporânea e Filosofia. Há quase 20 anos dedica-se a melhorar a condição de vida de populações marginalizadas através de seu Instituto Cultural Pólen ou em associação com organizações como Brazil Foundation, REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano e CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

Conselheiro e membro de instituições nacionais e internacionais como LEAD/ONU; ABDL- Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças; Universidade das Quebradas (UFRJ); Parque Nacional da Tijuca e Observatório da Intervenção, entre outras. Seu trabalho, prioritariamente focado em Economia Criativa Inclusiva, vem fazendo diferença na qualidade de vida de grandes contingentes populacionais no Rio de Janeiro, sendo reconhecido cada vez mais no Brasil e no Exterior.


 

Inclusão Social: um conceito ainda distante da realidade

Os últimos dias foram férteis em velhas “novidades” no Rio de Janeiro – cidade à beira do caos – e especialmente perversos para a realidade das favelas e periferias. Particularmente no Morro dos Prazeres – o prometido sujeito dessa segunda coluna – as atividades estão intensas e me desculpo pela atualização tardia do site e pelo tom pessimista que segue, mas vivemos há vários dias um caso emblemático das contradições que cercam o contexto daquele e demais territórios de similar natureza: fragilidades e fortalecimentos comunitários; Esperança versus Desencanto, avanços e retrocessos, entre elas.

Há duas semanas está preso um rapaz de 21 anos – ótimo exemplo de novas gerações emergidas nas oportunidades abertas naquela favela ao longo desses últimos anos cheios de esperança – que agora correm o risco de afundar de novo num oceano de falta de perspectivas, depressão e reatividade. Willian Preciliano Bezerra da Silva está sendo injustamente acusado de participar de um crime pesado: a rendição de um grupo de policiais da UPP dos Prazeres (Unidade de Polícia Pacificadora), em novembro de 2017. Quem vive naquela favela, como eu, sabe quem é quem e comove fortemente aquele/as 7 mil moradore/as assistir a um processo incorreto. Teatro de absurdos que não se restringe àquele personagem: o que aconteceu a ele poderia ter sido com qualquer um/a dali? Aquele “erro” de identificação fere a comunidade há dias por envolver a vida de um inocente com o tráfico de drogas das favelas cariocas. O que se instaura para aquela população é um fato simples: a partir de elementos que não são colocados publicamente, o perfil do rapaz e a fala de toda aquela população não tem o valor, sequer, de suscitar uma dúvida. Favelados somos, portanto cúmplices de bandidos (se não os próprios). Saiba mais sobre o caso: 

https://bandnewstv.band.uol.com.br/videos/16504278/ator-e-preso-acusado-de-fazer-policiais-refens-no-rio-de-janeiro.

Talvez você se pergunte: o que isso tem a ver com o assunto da coluna?

O objeto do meu interesse é o desenvolvimento comunitário, a vida de quem mais precisa de oportunidades para se inserir plena e dignamente na sociedade. Economia é eixo no mundo do capital, mas Inclusão Social define suas radiais e é triste relembrar o período luminoso vivido nos últimos anos pelos Prazeres (a partir de oportunidades criativas que melhoraram a qualidade de vida em dezenas de favelas cariocas) à luz de um presente de violações, reações irracionais e uma perspectiva de futuro tão sombria, onde pessoas antes solidárias agora acreditam que é armado e atirando que resolveremos problemas decorrentes da desigualdade de condições socioeconômicas do Brasil. É incrível como se consegue cada vez mais segurar uma Bíblia na mão e uma pistola na outra.

A Economia Criativa pode ser entendida como oportunização trazida por arranjos econômicos inovadores ou pela valorização de outros, vistos anteriormente apenas pelo viés de “arte & cultura” (aquilo que todo mundo adora, mas ninguém queria que seu filho seguisse, “coisa sem futuro”). Hoje, os setores que a compõem ganharam reconhecimento e valor econômico de peso – mudando aquela concepção. Conceito em formação, entendido e abordado de maneiras variadas, há um consenso entre aquele/as que ajudam a desenvolvê-lo em sua adolescência: o valor da qualificação intelectual para ativar aquele leque de possibilidades. Educação é elemento transversal nos setores da Economia, tanto na dimensão da empregabilidade quanto do empreendedorismo. Mas entregar seu destino ao processo de educar-se é algo próximo à fé: acreditar que o que lhe aguarda à frente é construído pela sua ação, investimento e tempo. Para se avaliar o resultado de algo que analisamos, buscamos suas razões de fundo, o lugar cada vez mais recuado e primordial de onde surge aquilo que vai promover uma revolução. Voltemos então mais um pouco. Transformações inclusivas de impacto necessitam de suporte econômico; este encontra na Economia Criativa um vetor inovador e acessível a diversas camadas da população (inclusive aquelas que vivem à margem dos setores tradicionais); que para se desenvolverem plenamente necessitam de instrução e calma, estas para se consolidarem exigem aposta no futuro. Para tudo isso, segurança: individual e coletiva.

Estamos bem distantes de algum prognóstico positivo nessa esfera. Veja os dados relativos à política de Segurança em curso no Rio, acessando: http://observatoriodaintervencao.com.br/

Mas se essa realidade segue distante da própria classe média, o que dirá de contingentes menos favorecidos?

Ao longo da última década carioca ouvimos o discurso demagógico da “invasão social”, prometida a reboque da instalação de novas políticas de segurança. Algo difícil de acreditar, pela imaturidade social que nos acomete como brasileiros, viciados na busca de oportunidades pelo viés individual, nunca pelo comunitário (e esse mal acomete tanto os representantes quanto os representados politicamente). Comportamento predatório muito longe da construção de uma Nação para gerações e não para si e seus “chegados”. Porém, com a instauração de um período de oportunidades trazidas momentaneamente por aquele (novo?) projeto de segurança pública aproveitou-se muito efetivamente de tamanha excitação comunitária, em muitos lugares. O Morro dos Prazeres e o Bairro Carioca (em Triagem) deram bons exemplos disso. Neste último, o projeto das Naves do Conhecimento, equipamentos públicos municipais de excelência criados há 6 anos em periferias cariocas proporcionou acesso à Internet, cultura digital e tecnologias, muito além do desejo de possuir um smartphone e uma conta em redes sociais.

Essa história em sua trajetória ascendente chegou ao ápice nos últimos anos, mas na minha favela vem de antes e seus protagonistas são o/as moradore/as daquele morro e um conjunto de atores fundamentais, que chamamos de ING’s – Indivíduos Não-Governamentais. Leia mais sobre isso no artigo que escrevi para o Conselho da Universidade das Quebradas:

https://www.universidadedasquebradas.pacc.ufrj.br/individuos-nao-governamentais-ings/.

ING’s foram uma espécie de soro fisiológico do organismo “Morro dos Prazeres” em sua trajetória de articulação e desenvolvimento ao longo dos últimos anos. Um sucesso do processo de “pacificação” que proporcionou ao Rio de Janeiro garantir megaeventos planetários e sonhar com um futuro que nem acreditávamos mais ser possível.

Para se ter uma ideia dos bons ventos que sopraram durante aquele espaço-tempo, moradores de favelas movimentaram R$ 68,6 bilhões em 2015, segundo pesquisa do Data Popular e da Central Única das Favelas (CUFA), em 63 favelas de 10 regiões metropolitanas. O aumento da renda média, proporcionado principalmente pelo crescimento real do salário mínimo e do emprego formal permitiu que 12,3 milhões de pessoas que viviam naquelas comunidades participassem do mercado de consumo em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e Brasília (locais da pesquisa). Um alento de esperança que alguns atribuem a um governo nacional de base popular, outros creem ter sido apenas uma conjuntura internacional favorável. Não entrarei nessa discussão que faz ferver o sangue da maioria, mas se estivesse agora escrevendo um roteiro audiovisual diria: corta pro presente!

Lamento, o bom sonho vai se esfumando da memória na confusão de cada dia. Olhar agora para o meu personagem coletivo (o Morro dos Prazeres) é ver não a exceção daquela, mas os grandes desafios estruturais de qualquer favela carioca hoje; e não há como dissociá-los do que acontece com Willian Preciliano e com muitos personagens de igual origem, no mapa social amplo e fragmentado do Rio de Janeiro. Aquela trajetória de sucesso ainda será tratada aqui (é orgulho de centenas de pessoas, moradoras ou não daquela favela e seu entorno) mas rememorar agora um passado solar neste presente entre nuvens seria anacrônico. Dispensarei menos atenção à base econômica do tripé economia/criatividade/inclusão, destacando os desafios fundamentais da cidadania de sujeitos que compõem uma enorme faixa da sociedade ainda longe do direito a existir com dignidade. O olhar desta coluna hoje segue uma questão básica da Inclusão Social numa metrópole brasileira (especialmente no Rio de Janeiro): a própria condição de favelado (e seu destino).

Willian Preciliano é filho de imigrantes nordestinos. Pai porteiro, mãe dona-de-casa, é um rapaz bem criado e que não se envolveu com drogas (raridade no universo urbano contemporâneo; de ilimitada oferta de entorpecentes lícitos ou não). Com 96% de frequência escolar, ensino médio completo, tem personalidade tímida e alegre. Bom relacionamento e comprometimento com aquilo em que se envolve. Foi uma das centenas de jovens que passaram pelo projeto Premier Skills, uma ação do British Council com apoio da Premier League e secretaria de Segurança do Rio, que o morro dos Prazeres soube aproveitar e que eu tive o prazer de conceber e coordenar com outros ING’s. Originado de um modelo inglês que associava sessões de futebol com atividades culturais, o Premier ganhou outra cara nos Prazeres definindo atividades que chamamos de Prática Cidadã, uma espécie de “mão-na-massa” para promover melhorias na comunidade e nessa ação refletir sobre o papel de todo/as na pavimentação de um chão com significância real de direitos & deveres. Cidadania repetindo regras que existem mais no papel, menos na realidade não nos interessava. Pintamos praças, eliminamos lixões, conscientizamos moradores, abrimos espaço para uma interação menos preconceituosa entre o novo contexto policial que emergia e a comunidade ainda reticente; questionamos as obrigações de cada um/a na melhoria da qualidade de vida daquele lugar. Não apenas do Prefeito, Presidente, Associação de Moradores… mas da Dona Branca, do Seu Zé Venâncio. E deles, aqueles novos jovens que moldaram seu caráter comunitário ao longo de cinco anos de um projeto cujo sucesso tornou-o destaque inclusive no país de origem, a Inglaterra (as portas abertas pela trajetória daquele projeto continuam a nos beneficiar e foram fundamentais para a criação da CriaAtivo Film School, uma iniciativa que beneficia 170 jovens de 80 favelas e bairros periféricos cariocas hoje, também coordenada pelo Instituto Pólen, nossa “ONG de ING’s”). Mas quem conhece de perto a realidade de faixas pobres do Brasil sabe a dificuldade de manter jovens num ambiente sadio, física e intelectualmente, particularmente interessados no ambiente escolar. O Premier Skills usou o poder de atração que o futebol exerce no Brasil para criar um contexto de valorização de práticas, estudo e saber; também a ação comunitária como ferramentas de transformação de vida, associadas àquele prazer desportivo. Sem o embuste de “federar” ninguém, alimentando sonhos (e frustrações) de inacessíveis carreiras futebolísticas. Willian Preciliano, ao longo de sua entrega a nós por cinco anos beneficiou-se disso e seguiu seu caminho, envolvendo-se em projetos de qualificação profissional e concluindo os estudos. A mesma história de Walas, Lucas, Camila e uma enorme lista de bons exemplos resultantes daquele investimento comunitário, se não fosse o trágico acontecimento do dia 09 de agosto: ao apresentar-se no DETRAN para dar início ao processo de habilitação para condução de veículos descobriu um mandado contra ele. Saiu preso, deixando-o e a todo/as nós atônitos com o que ocorria.

Em 2017, o desgaste da política de segurança pautada pelas UPPs já era evidente em toda a cidade do Rio de Janeiro. No Morro dos Prazeres, apesar de incidentes pontuais (a maior parte iniciada nos morros vizinhos) o relacionamento seguia na cordialidade possível num ambiente com dois elementos explosivos e armados. Em 20 de novembro daquele ano, nove policiais foram subjugados por traficantes. Uma hora depois foram soltos, armas devolvidas. Sem mortos, feridos ou maiores humilhações – o que não diminui a gravidade do ato e a série de crimes relacionados a ele. Mas os próprios depoimentos dos policiais declaram ter se tratado de uma “conversa”, o que evidencia o caráter do bom relacionamento em vigor ali, fruto de um grande trabalho de articulação ao longo desses anos, tanto de corretos policiais que comandaram e atuaram naquela UPP quanto das lideranças que existem na comunidade e sua credibilidade.

Cinco meses após aquele fato, os policiais afirmaram ter reconhecido 13 envolvidos; um envolveu Willian Preciliano, sendo seguido por outros cinco. Não há álibi (estar com a mãe, em casa, obviamente não tem validade). Também não há provas contra ele, além do “reconhecimento”, que o processo alega ter-se dado por fotografias.

A Unidade de Polícia Pacificadora do Morro dos Prazeres foi inaugurada no início de 2011. A beleza do morro, sua proximidade com o Centro e zona Sul, a simpatia dos moradores, o charmoso bairro de Santa Teresa, o Cristo Redentor e a vista deslumbrante de 360 graus, aliados à sensação de segurança que então se estabelecia no Rio não tardariam a atrair muita gente para seu cotidiano.

Oportunidades surgiram na esteira de um Brasil que decolava (uma alusão à capa da revista inglesa The Guardian, que apresentava a cidade como potência cultural, social e econômica), o Rio era um sucesso internacional de novo e passamos a atrair um grande fluxo turístico. Engana-se quem acredita que aquele visitante estrangeiro vinha em busca de aventuras, miséria ou gente armada. Os morros atraiam justamente pelo caráter criativo da vida na favela, pela capacidade de ser feliz apesar das durezas de seu contexto e pela incrível vista. O turismo nas comunidades – ao contrário da imagem de gringos em jeeps que a Rocinha difundiu – nunca foi um safári humano, mas criou laços duradouros de proximidade e ofertou possibilidades de interação e formação para muitos jovens, além da quebra de uma série de preconceitos de ambos os lados (turistas e moradores). Vocês conhecerão a história do Prazeres Tour em outra ocasião.

Ao universo ficcional e às coberturas documentais que os jovens locais na Galera.com já realizavam (outra história que contarei depois), o morro passou a gerar renda para tantos outros moradores também como cenário de programas de televisão (como o RockGol 2011, um campeonato de futebol entre artistas veiculado pelo canal MTV e novelas da TV Globo e da Record) ou para filmes como “Morro dos Prazeres”, premiado documentário de Guta Ramos que acompanhava o cotidiano daqueles primeiros anos de pacificação na favela.

Importante lembrar que um dos setores que mais cresce na Indústria Criativa é justamente o mercado da produção audiovisual. Nas favelas e periferias cariocas, o período de tranquilidade conquistado com as UPPs trouxe uma série de oportunidades econômicas em sintonia com aquele setor, gerando um aquecido mercado audiovisual que atraiu inclusive blockbusters hollywoodianos (destaque para “O Incrível Hulk”, “Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio” e o ainda inédito no Brasil, “Trash – A esperança vem do lixo”). Mas nem sempre de olhares externos é feito o apelo audiovisual da favela. O longa-metragem “Fuga da Rocinha”, do roteirista e diretor Antônio Junior, concebido e produzido naquela comunidade com menos de R$ 3 mil, em um ano já tinha sido assistido por mais de 1,6 milhão de pessoas no YouTube.

Entre setembro e outubro de 2017 mais um longa foi filmado no Morro dos Prazeres. “Pacified”, atualmente em fase de montagem, tem roteiro e direção de Paxton Winters, um apaixonado americano morador daquela favela há seis anos. A produção do filme, cujo roteiro é inspirado na realidade daqueles moradores que tanto encanta o diretor, empregou dezenas de pessoas, criando uma cadeia de contratações diretas e indiretas de alimentação, locações, produção de arte, transporte e elenco. Entre eles, Willian Preciliano. E talvez aí esteja o elemento que o associou indiretamente ao crime ocorrido apenas um mês depois.

Contratado do elenco de apoio e tendo como personagem um bandido da gangue do traficante interpretado pelo ator José Loreto, Willian gravou devidamente caracterizado, portando réplicas de armas e teve a inocência de postar nas redes sociais algumas das fotografias – junto ao elenco protagonizado por Bukassa Kabengele e Débora Nascimento, mas também sozinho. Acreditamos que as fotos do dito “reconhecimento” possam ter sido aquelas, descontextualizadas. Não há outra razão para que fotografias de um rapaz com aquele perfil, que jamais teve ocorrências policiais ou citações alusivas a crimes ou comandos de drogas em suas páginas pessoais possam ter alimentado álbuns de delegacias. Pense um pouco: vida no crime exige dedicação intensa e exclusiva. Willian, em um ano (meados de 2017 a meados de 2018, quando concluiu o ensino médio) faltou na escola menos de 5 (cinco!) dias, num período em que tivemos muitas operações no morro e confrontos variados, inclusive o fato aludido no processo. Você consegue imaginar nesse cenário, um bandido (descrito como um dos “cabeças”) dizer pros companheiros: “Segura aí meu fuzil que vou na escola acompanhar todas as aulas e volto mais tarde, beleza”?

O fato é que, desde a prisão, aquela comunidade tenta em vão provar sua inocência e na ressaca diária dessa enorme injustiça revela-se outra em ampla escala: a absoluta falta de credibilidade do morador de uma favela hoje. Talvez possa dizer que, desde sempre, a visão sobre aquela população como bandida ou cúmplice esteja no senso comum brasileiro. Verdade é que, nesse momento, a desmoralização de políticos e políticas públicas do Rio de Janeiro (personificada num ex-governador preso que carrega boa parte da tipificação do Código Penal) atinge níveis dramáticos e é “referendada” por uma sociedade que passou a não considerar criminoso um delegado de polícia, num programa de televisão, ameaçar a periférica Acari com “um banho de sangue” para vingar a morte de um colega; ou o secretário de Segurança usar a expressão “ai da comunidade onde a gente tiver dissabor”; ou (pior para toda a nação) um candidato a presidente, em rede nacional, declarar como plano de governo que a saída para a violência é produzir mais violência. Dentro desse ambiente não é estranho que a “inteligência” policial e a “mão pesada” da Justiça estejam tão pouco sensíveis ao argumento de milhares de moradores. O Morro dos Prazeres, ao longo dos anos em convívio harmônico com a UPP (e mesmo nesse sofrimento de agora, acredita num erro e não em má fé policial) sempre demonstrou a dignidade de caráter de quem é VÍTIMA, nunca cúmplice de ilegalidades. É incrível que, com tantos argumentos demonstrando claramente a diferença daquele rapaz diante dos demais acusados (todos com baixíssima escolaridade e ampla ficha criminal), sendo defendido por pessoas reconhecidamente íntegras, parceiras por anos daquele equipamento policial local não sejamos capazes de suscitar o mínimo de dúvida em sua inocência (ou pelo menos de que não apresenta traços de perigo à sociedade, que o obrigue a seguir encarcerado, enquanto se investiga melhor).

O pedido de revogação da prisão foi negado pelo Ministério Público e igualmente pela juíza do caso (ambos repetindo o mesmo argumento inicial, um aparente “copia e cola” do processo original: “fato grave, reconhecido por policiais”), sem observar as estranhezas. No fundo, o que parece estar sendo dito e praticado é que a fé pública de 6 policiais é absolutamente maior do que a palavra de 7 mil moradores. Ninguém estranha que, entre tantos, defendamos um. Somos da favela, não merecemos confiança.

O processo está agora sob apreciação de um recurso e, talvez, no intervalo entre a finalização desse texto e sua publicação, um desembargador possa ter percebido a alta probabilidade de injustiça desse fato (para eles: para nós, 100% daquela favela, não há nenhuma dúvida).

Bem, mas o que isso tem mesmo a ver com Economia Criativa? Tudo!

Apesar de sua capacidade quase miraculosa de gerar profundas oportunidades positivas (e grandes riscos), para que estabeleça seu prognóstico positivo a Economia Criativa necessita de um ambiente estruturado e estruturante que estamos longe de ofertar em todo o Brasil e, apesar de nosso imenso e reconhecido capital criativo, talvez nem desta inventividade possamos nos beneficiar. A despeito da importância de instrumentos, softwares e processo inovadores, a essência e o valor do bem criativo está na capacidade humana de inventar, imaginar e criar, seja de forma individual ou coletiva. O Morro dos Prazeres reinventou-se ao longo dos últimos anos, inclusive em modelos de inter-relacionamento com o quase único elemento do Estado ali presente, a polícia. Criamos juntos e em interação uma série de oportunidades que foram atrativos para franceses, ingleses, alemães, sul-africanos, americanos. Mas não temos nenhum valor para o brasileiro.

Favelas representam (apenas na cidade do Rio de Janeiro, segundo o Censo 2010, em dados questionados pelas comunidades), pelo menos ¼ da população. O caminho de sua inclusão social, mesmo com os avanços que tivemos nos últimos anos, ainda é bem longo e passa primordialmente pelo respeito à dignidade daqueles sujeitos.

Talvez nem Willian Preciliano, nem eu ou você vejamos isso ocorrer no Brasil.

 


 

por Charles Siqueira em 11/07/‎2018.

Origens criativas

Muito prazer, sou Charles Siqueira. Pernambucano de adolescência baiana, vivo e trabalho no Rio de Janeiro há 27 dos meus já 49 anos dedicando-me a reunir parceiros em prol da melhoria da qualidade de vida de populações periféricas, especialmente de favelas cariocas, com ações que hoje estão sendo designadas como vetores de Economia Criativa para a Inclusão Social, mas no início não tinham pretensão de serem nominadas. Tampouco obter os resultados em escala como os daquelas ações solidárias de homens e mulheres (jovens, velhos e até crianças) que passamos a chamar de INGs – Indivíduos Não Governamentais. Ao criar tal conceito buscamos afirmar já em nossa identidade comum que o poder de transformar o mundo envolve o seu entorno e responsabiliza qualquer um/a.

Perfil empreendedor

De cara, acredito que seja mais importante qualificar este que escreve a você, dando as linhas gerais do que pretendo compartilhar – se me der o prazer de estarmos junto/as mensalmente. Esta coluna pretende olhar para um aspecto em particular: a força de ações concretas (sejam individuais, coletivas ou institucionalizadas) no destino das pessoas e o sucesso de seus empreendimentos; considerando também os erros aprendidos – o lado “b” de qualquer iniciativa, sempre tão capaz de nos ensinar a sermos melhores em nossas intenções. Vou me amparar em muitos dados, mas saibam que essas palavras terão sempre muito de opinião. Nessa jornada terei a ajuda de colaboradores diversos, do Brasil e da Inglaterra (há anos um país parceiro de nossas iniciativas e um ecossistema de inovação bastante desenvolvido quando falamos da criatividade impactando economia e desenvolvimento urbano); também espero aprender com dicas, opiniões, dúvidas e críticas de cada um/a de vocês que nos der o prazer de acompanhar essas narrativas. Ratificando, retificando e ampliando os sentidos de palavras e conceitos aqui presentes.

Enxergo os três conceitos associados ao tema aqui sob minha responsabilidade (Economia, Criatividade e Sociedade) como palco da ação de sujeitos, mesmo quando utilizamos a ótica dos números para desenhar visões de mundo ou constituir ferramentas que ajudem na sua “gestão”. Recorrerei muito a eles: números por vezes são frios e distantes (quando equiparam pessoas a processos) mas tantas vezes são necessários para estabelecer indicadores que ajudam a enxergar resultados. Mas essa não será a coluna de especialistas e sim de sujeitos em ação para melhorar a qualidade de vida de quem segue historicamente prejudicado/a pela má-distribuição de recursos e riquezas. Buscando aprender com as ações de outros sujeitos – em configurações que podem variar do indivíduo e da escala das organizações civis ou ainda no nível de políticas públicas, já que não creio sermos governados (ainda?) por máquinas ou algoritmos, e sim por pessoas investidas de vontade e/ou poder.

Pretendo incluir perspectivas teóricas – já que pesquisa e inovação são conceitos-chave no universo em construção da Economia Criativa -, mas iluminar casos concretos é o que mais pretendo fazer aqui e gostaria de ter a companhia de um sujeito pensante e atuante para a melhoria da vida em igualdade social – você.

Convite surpresa

Recebi o convite para colaborar com o site Socialismo Criativo com honra, alegria e algumas dúvidas. Primeiras reflexões: quem sou eu para ladear personalidades tão relevantes das áreas de empreendedorismo, gestão e economia, como o/as companheiro/as colunistas? O que tenho a contribuir que não possa ser melhor abordado por palavras e ideias daquele/as especialistas que admiro?

Não encontrei a resposta e deixarei essa conclusão para vocês, ao longo do tempo. Topo o desafio não de competir com ele/as; perderia: não sou “sério” o suficiente, nem tão formal na escrita ou rigoroso com conceitos. Criei coragem de encarar esse público por uma personalidade inquieta que deseja naturalmente conhecimento e não-acomodação (e se obriga à ampliação de saberes e à confrontação de pontos de vista), tão explícita no caminho de (in)formação disperso e multifacetado percorrido até agora: Letras, Dança Contemporânea, Filosofia e Gestão Ambiental. Não é trajetória de foco, mas de quem segue como indivíduo aberto e curioso, construindo uma livre jornada, respeitada e apoiada por instituições nacionais e internacionais e espalhando-se pelo Brasil, mas acima de tudo admirada pelos moradores das minhas comunidades. O convite que lhe faço é o de seguir conosco conhecendo as inquietações daquele/as que transformam vidas pelas novas maneiras de aprender, ensinar e produzir, características da revolução criativa em expansão no mundo. Se tens essa curiosidade convido-te para junto/as seguirmos revelando outro/as.

Viagem conjunta

O questionamento seguinte também foi natural: um sujeito, cujo ethos e ações tem resultados políticos identificados com a esquerda, mas que nunca foi partidário é passível de encontrar espaço num porto firme de posição ideológica tão definida?

Para essa pergunta tenho menos resposta ainda. Porém confio mais uma vez na trajetória passada para superar armadilhas de um mundo de polarização apaixonada que costumo explicar como um momento que diminui a relevância das Ágoras (os espaços públicos de opinião cidadã da Grécia Antiga) e a substitui pela espetacularização das arenas de luta romanas. Diversão com barbárie, no universo tecnológico das telas de um smartphone – patrimônio simbólico dessa era capitalista.

Há anos como articulador comunitário na favela onde vivo no Rio de Janeiro ou nas demais que influencio, sempre foi sedutora a perspectiva de usar capital moral a serviço de indivíduos políticos. Entendi que quão mais longe de uma cena partidária me mantivesse (sem desmerecer a esfera político-partidária) mais forte seria o grau de coesão comunitária. Irmão de outro/as 15, aprendi cedo a conciliar para manter a união e segui vida afora acreditando que não ter posições cristalizadas pode levar a caminhos transformadores; uma aprendizagem da Filosofia (busca aberta, sempre refratária a “certezas”) e um acerto que proporcionou o status único no meu cenário de inimigos figadais: de chefes de tráfico a comandantes da polícia – não pairaram dúvidas sobre intenções e princípios que regem meu trabalho. Sem cumplicidade, mas com uma confiança conquistada, por exemplo, ao não enxergar a polícia como vetor de corrupção e violência (senso comum no Rio); tampouco no traficante um monstro a ser eliminado para o bem da segurança pública.

Organizando os sonhos

Espero que esse posicionamento estruturante me permita trazer a esta página, entre erros e acertos, a grandeza do trabalho de qualquer um/a; não apenas de alinhamentos às minhas próprias ideologias (ou do site). Concordo, discordo, questiono, critico, aponto as falhas, reafirmo minhas convicções (ou as altero, se assim for), mas mantendo respeito pelas demais. Isso também peço a você e esse entendimento é indispensável em nossa relação que começa agora.

Sou artista desde que amei o forró dos barracões no sertão pernambucano. Descobri a break-dance e o som pop de Michael Jackson e Madonna, em apresentações do Grupo Alpha na TV Itapoan, em Salvador; estudei dança contemporânea na escola de Angel Vianna, no Rio. Em meu gosto por mestre/as, formei-me na companhia de Paula Nestorov e Antonio Saraiva, um grupo que inovou como híbrido de dança e música na cena contemporânea carioca, que nos anos 90 tornava-se destaque no mundo e profissionalizou uma ampla geração, em franca produtividade até hoje.

Abandonei a segurança do Banco do Brasil para viver economicamente de Arte, o que exigiu muita criatividade além dos palcos (e um posicionamento entre a loucura e a coragem, para alguém financeiramente pobre). Tornei-me professor e conheci o Morro dos Prazeres, uma favela de 7 mil moradores, no alto do charmoso bairro de Santa Teresa. Encontro mágico: uma população feita de negros (como o meu centenário pai), mineiros e nordestinos como eu. Ali fundei o Dança pra Galera com dezenas de crianças que cresceriam ao longo dos 16 anos seguintes e seriam a espinha dorsal de um projeto de desenvolvimento comunitário que envolveu centenas de vidas e desdobrou-se em iniciativas variadas como a Galera.com (núcleo de produção gráfica e audiovisual) e o Núcleo de Educação e Formação Humana (educação complementar à jornada escolar com leitura, informática, artes, educação ambiental e valores solidários). Também o Prazeres Tour, uma cadeia de produção e geração de renda legal através de atividades turísticas de bases comunitárias; o Jardim dos Prazeres e o Caminho do Graffiti, ações de valorização das paisagens e da autoestima locais. Mais recentemente, a CriaAtivo Film School – qualificação profissional de jovens de 82 favelas e periferias do Rio, realizado em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro. Projetos, ações e iniciativas que moldam uma organização não-governamental, o Instituto Cultural Pólen.

Metas possíveis

Os desdobramentos das iniciativas e a herança indireta daquelas ações; o impacto na formação e na vida econômica dos jovens e da comunidade ao longo dos anos; a transformação de um local antes isolado e sob domínio total de traficantes para uma comunidade aberta ao mundo, interagindo com outros países e articulando sua segurança a partir da consolidação de uma rede forte de protagonistas do território, intermediando o diálogo e minimizando confrontos letais entre policiais e traficantes de drogas serão o destaque da nossa próxima coluna.

Espero ter o seu interesse, atenção e participação.

9 COMENTÁRIOS

  1. Sabias palavras e texto de uma extrema coerência e principalmente consciência social.

    O que esperamos e iremos buscar é trazer justiça a quem não tem, dar voz a quem não tem…não estamos aqui querendo ser maior ou menor que alguém, queremos sim uma paridade,uma igualdade que nos é negada por diversos fatores, seja ele social, seja ele racial e etc…

    O que acontece com o William hoje é uma triste realidade vivida por diversos outros “ Willians” que estão anônimos e oprimidos nessa nebulosidade que assola essa política de anti cultura…

    Parabéns pelo artigo, palavras brilhantes e bem colocadas , conte sempre conosco…forte Abraço

    Dr. Jairo Escovedo e Dr. Vinicius Saldanha

    • Obrigado, Dr Jairo e dr Willian.
      Agradeço, em nome da família de Willian e dos moradores do Morro dos Prazeres a importante contribuição voluntária que estão dando nesse caso.
      Como membro do Conselho do Observatório da Intervenção, tenho visto que casos de igual natureza vem se acumulando nesses tempos sombrios.
      Parabéns pela criação do movimento #NaoFuiEu, importante chance de auxiliar àqueles que precisam. Se, mesmo no caso de Willian (com repercussão midiática, uma comunidade articulada e bem relacionada) não conseguimos avanços ate o momento, o que dirá de jovens de fato abandonados a própria sorte.

  2. Parabéns Charles! Não só pelo conteúdo da coluna, mas por dedicar o seu tempo em prol dos menos favorecidos e por ter esse coração gigante e generoso.
    Sou seu fã, admiro demais a sua dedicação.

    Que o universo conspire sempre a seu favor, proporcionando a cada dia mais energia e entusiasmo para seguir com esse trabalho incrível.

    Um forte abraço meu amigo ✌

  3. Lindo demais seu percurso Charles! Me emociona te ler e ver tanta beleza, paixão, equilíbrio e essa capacidade linda de um filho entre 15 irmãos (sério?) de mediar tão bem com neurtalidade, e ser repeitado por todos, como você consegue. É o seu devir! Devir de criar e de ajudar a transformar realidade como mobilizador que se deixa afetar pelo outro co-criando universos novos de acesso a direitos, à arte, à cidade e a um novo olhar sobre o mundo! Parabéns!! Conte sempre com meu apoio no que precisar! Que você inspire muitos Charles 🙂 beijo e abraço gde

  4. Perfeito. A inclusão social no Brasil sofreu um revés estrondoso com anuência e mesmo pró-ações do poder público, aí incluído o sistema judiciário e policial do país.
    As Leis vem sendo descumpridas quando se trata de defender os contrários aos interesses de quem se delega seu dono.
    Direitos constitucionais vem sendo abnegados constantemente por quem deveria preza-los.
    A mídia contemporiza todos os casos do seu interesse e uma multidão finge que não vê, até sentir na sua carne a marca da injustiça sem direito de defesa.
    Tem que haver uma reforma nos poderes formadores das Leis e naquele que as cumpre. A covardia de punições sem o mínimo desrespeito do direito do cidadão em sua defesa nunca foi tão menosprezada.

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