Zivé Giudice

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Zivé Giudice nasceu em Jitaúna, Bahia. Formou-se pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia em 1980. Entre suas individuais: 1985 – Escritório de Arte da Bahia, Salvador, BA; 1997 – Galeria de Arte da Casa Thomas Jefferson, Brasília, DF; 2000 – Espaço Cultural Le Corbusier, Embaixada da França, Brasília, DF; 2004 – A cidade é bela, Espaço Cultural Politec, Brasília, DF. Em coletivas: 1998 – Bahia a Paris – Arts Plastiques d’aujourd’hui – Galerie Modus, Paris, França; 1998 – Cem Recuerdos para Garcia Lorca – Espaço Cultural- 508 Sul – Brasília, D.F.; 1999 – Arte em um Céu para Todos – Pipas pintadas por artistas latino-americanos / 50 anos dos Direitos Humanos – Memorial da América Latina – São Paulo. Foi premiado em Salões Universitários; em 1986 – VII Mostra do Desenho Brasileiro – Curitiba, PR; 1986 – IV Salão Arte-Pará – Menção Honrosa.


As imagens atravessam, em seus signos, um sertão e uma mata atlântica baiana onde nasceu e viveu a infância, e dela uma ação de contar histórias, registrar espaços, extrair impressões, passando pela vida adulta na urbanidade de Brasília, onde incorporou humor e ironia. Isso sem esquecer a cidade da Bahia, cidade da adolescência e juventude, à qual está de volta hoje, marcada pela formação e a informação, o conhecimento da arte e do mundo, quando a obra ganhou uma dramaticidade que se juntou ao imaginário, abarcando melancolia e alegria, e tornou imperioso realizar um trabalho que não seja crítica social.

Muitas palavras poderiam pontuar sua trajetória – instigante, intenso, figurativo, entre outras – e todas abrangeriam um momento ou vários momentos da sua arte, desenho e pintura que se misturam e se completam por um caminho conduzido pelo artista para instigar, em seus temas, e no fazer de técnica e tons, a exigência de uma arte para pensar e se pensar, questionadora do hoje e da condição humana.


 

Entrevista Exclusiva concedida por Zivé Giudice para Revista Lupa por Ariadny Araújo e Tainá Amado. Fotos: Arquivo pessoal.

em 22/03/2017.

Gestor cultural e artista plástico, Zivé Giudice mostra como museus e galerias são mais do que meros espaços para encarar-se obras de arte à distância. Ele fala a respeito da atual situação destes espaços na capital baiana, ainda pouco reconhecidos pela população local como pontos de ocupação e produção de conteúdo. Dentre defeitos e qualidades, Zivé aponta a importância de preencher museus e galerias com projetos educativos, música, cinema e outras manifestações artísticas.

“Não só de passado vivem os museus.”

Zivé nasceu na cidade de Jitaúna, interior da Bahia, e se mudou para Salvador com o objetivo de estudar arquitetura. Seus planos mudaram quando se rendeu às artes plásticas, completando o curso da Escola de Belas Artes da UFBA no ano de 1980. Suas exposições já visitaram lugares como o Memorial da América Latina, em São Paulo, e a Galerie Modus, em Paris, e recebeu prêmios diversos, como na VII Mostra do Desenho Brasileiro, realizada em Curitiba (PR), e no concurso de projetos Arte Para a Rua da Fundação Cultural do Distrito Federal. Também atuou na gestão do extinto Departamento de Museus e Artes Visuais da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e do consagrado Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM – Ba).  Personalidade forte e ativa, Zivé Giudice está sempre em busca de movimentar o cenário artístico baiano, promovendo discussões e questionamentos sobre a gestão das artes visuais no estado.

Imagem 2 - Zivé Giudice

Para começar, o que o influenciou na decisão de estudar e trabalhar com artes plásticas?

Quando a gente ouve aqueles atores da Globo falando que começaram desde pequenos, a gente acha bobagem, mas é meio assim que funciona mesmo. Desde garoto, eu copiava gibis, capas de revistas em quadrinhos, personagens. Meu pai também desenhava umas figuras e eu reproduzia o que era feito por ele. Vim a Salvador com a intenção de fazer Arquitetura, mas decidi ser artista visual. Eu precisava de uma formação e, por incentivo de outras pessoas, optei por estudar artes plásticas na UFBA. Quando você tem uma vocação para algo, tudo flui organicamente. Nada me foi imposto, sempre tive muita liberdade e um grande incentivo.

“Como artista, intelectual e cidadão, eu compreendo que museu não pode ser coordenado por agentes que cuidam de bens materiais.”

Há trinta anos você ocupava o cargo de diretor do Departamento de Museus e Artes Visuais da Funceb. Quais foram as principais mudanças ocorridas de lá pra cá?

Naquela época, os museólogos defendiam gestões mais engessadas dos museus, apesar de o cargo de gestão ser um cargo flexível, que pode agregar diversos tipos de profissionais. Ser museólogo não interfere no conceito do museu. O que interfere é como a direção do museu o pensa, além da sua capacidade de trazer grandes artistas que produzam conteúdo para o espaço. Hoje em dia, existe uma flexibilidade maior nesse meio, mas eu vejo que há menos estudo por parte dos museólogos. Antigamente, todos os museus eram subordinados do extinto Departamento de Museus e Artes Plásticas da Funceb. Eles tinham mais autonomia e eram tratados como linguagem. Atualmente, sendo subordinados ao IPAC [Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia], os museus estão mais limitados e são tratados como patrimônio. Como artista, intelectual e cidadão, eu compreendo que museu não pode ser coordenado por agentes que cuidam de bens materiais. Museu é linguagem, sensibilização e educação. É o lugar onde se pode compreender o que é chamado de arte. Não faz sentido ser administrado por um órgão que foca na estrutura e não no conteúdo.

Você tem a proposta de criar uma espécie de secretaria paralela de artes. Como funcionaria essa iniciativa?

A ideia da secretaria é unir pessoas de diversos eixos do mundo artístico e mapear onde pode acontecer alguma coisa. Encontrar lugares alternativos para representar artistas, professores, coletivos que vão desde a área de dança à performance, teatro, cinema e artes plásticas. A partir desse mapeamento, realizar projeções de cinema, programação de filmes sobre artistas baianos e feitos por artistas baianos, além de exposições e instalações construídas de forma independente.  A secretaria tem como proposta oferecer arte gratuita para a cidade a partir de um calendário que também será discutido e elaborado. É uma coisa voluntariosa, pra revelar uma indignação com a gestão bastante limitada que é feita na Bahia no ramo das artes. É preciso tomar atitudes revolucionárias para difundir a arte de forma concreta e acessível, sempre articulando muito para que dê tudo certo.

“Se não houver artistas produzindo conteúdo o museu perde o sentido, vira um esqueleto vazio.”

Durante sua gestão no MAM, você tomou alguma medida para incentivar o emprego de atividades que promovessem uma maior interatividade do público com o espaço?

Museu vive de artista, não de diretores e secretários. Se não houver artistas produzindo conteúdo, o museu perde o sentido, vira um esqueleto vazio. Eu criei um conselho curatorial (informal) que contribuía, discutia o que poderia ser feito para ocupar os espaços do MAM. O conselho contava com artistas como Alma Andrade, Caetano Dias, Paulo Darzé, Bel Borba. O último evento da minha gestão contou com três exposições mais a abertura da lojinha do MAM. Chegaram a comparecer mil e duzentas pessoas.

É comum o conceito de museu ser associado a um local arcaico, sempre ligado ao passado. De que forma você acha que esse espaço deveria ser visto?

Museu não é mais o lugar em que se guarda um objeto sacralizado. É uma espécie de “paralaboratório”, que tem que se abrir e convidar a sociedade para participar dele. Devem ser criados meios de fruição para que as pessoas compreendam o que está ali. Antes, o museu era um lugar só de especialista. Era frequentado por estudantes, artistas, curadores, historiadores, professores de arte. Hoje, é um lugar da cidade e do povo, e ele tem que criar condições pra que o povo vá lá e compreenda o que é aquilo. Museu também é um lugar para discutir política, a cidade, arquitetura. Devem ser feitos debates, palestras, possibilidades pra movimentar os espaços, trazer uma dinâmica. Museu é uma usina que deve estar sempre viva, produzindo.

Atualmente existe uma discussão a respeito da ascensão das galerias de arte sob os museus de arte contemporânea no mundo, mas Salvador nunca chegou a receber um museu de arte contemporânea. Por quê?

Porque sempre faltou dinheiro. E essa discussão sobre a criação de um museu contemporâneo veio muito recentemente. O Museu de Arte Moderna cumpria com esse papel de agregar também as produções de arte contemporânea, atendendo à demanda e à necessidade estratégica dessa produção e desse conceito, mas isso foi mudando. Mais artistas foram aparecendo, surgiram novas plataformas. É necessário um museu que tenha uma configuração física capaz de atender ao armazenamento das obras contemporâneas, que, em parte, acabam possuindo dimensões fora do comum. Um espaço que não tenha sido criado com esse objetivo não conseguiria comportar.

Você já expôs em diversos lugares, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Pra você, o que diferencia os museus e galerias de Salvador dos outros existentes no Brasil?

A maior diferença é o prestígio e a quantidade de recursos. Alguns espaços são assistidos por governos e secretarias, que dão mais valor e compreendem a importância da arte. Isso influencia na qualidade das pautas, faz com que eles tenham programações mais interessantes, mais atraentes tanto para o público que está realmente inserido nas artes visuais, quanto para o público comum. É preciso compreender a importância da arte enquanto construção social. A arte ensina, alimenta, agrega, e não são todos que compreendem isso.

Qual espaço artístico da cidade você indica para aqueles que gostariam de sair do circuito tradicional de museus?

A Paulo Darzé Galeria de Arte, que fica próxima ao Museu Carlos Costa Pinto, no Corredor da Vitória. É o espaço mais contemporâneo de Salvador e que abriga um conteúdo realmente experimental. É engraçado, ele [Paulo Darzé] se queixa de que as pessoas não frequentam o lugar, porque existe uma imagem de que só quem deve frequentar galeria de arte é aquele que vai comprar as obras, mas não. É um lugar fabuloso, que está sempre de portas abertas aos visitantes e que todos deveriam conhecer.

Postado na Revista Lupa.

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