Osmani Simanca

0

por Mª Herminia 29/03/2019.

ENTREVISTA com Osmani Simanca

Ele é um exímio cartunista. Com créditos firmados no panorama nacional e internacional. A ponto de ser um fruidor da sua própria obra. É assim que Osmani Simanca, Cartunista Editorial do Jornal A Tarde, Bahia-Brasil, traz em cada charge um registro histórico de um momento político, esportivo, cultural, social… Ao fazer isso ele une humor, crítica, análise e reflexão sobre o cotidiano, o que ele explica nesta conversa à Revista Cultura Visual.

Mª Herminia – Começou a desenhar há quase vinte anos, o que mudou na sua produção em todos esses anos? Como vê o que fazia e o que faz hoje?

Simanca – Comecei na Escola de Belas Artes “San Alejandro” com 14 anos e publiquei meu primeiro desenho em um livro aos 12. Para desenhar, como em tudo, se necessita muito estudo, dedicação e prática.

Há os que têm habilidades natas e podem amadurecer mais rapidamente um estilo. Na medida em que estudava pintura e desenho na Academia, publicava cartuns nos periódicos. Posteriormente, fui um dos quatro alunos selecionados para cursar a licenciatura em Artes Plásticas com especialização em gravura no Instituto Superior de Arte. Existem desenhos que fiz há muito tempo e ainda gosto, outros nem tanto. Goya falava com 80 anos: “Todavia aprendo”; ainda falta muito para eu aprender.

Imagem www.resistart.ir

Mª Herminia – Já teve problemas com seus desenhos? Ainda há censura?

Simanca – Em Cuba não cheguei exatamente a ter problemas porque nunca fiz caricaturas de Fidel Castro. No Brasil tenho trabalhado com total liberdade, inclusive, tenho feito várias caricaturas de Fidel, de Bush e do Papa que têm me dado grande satisfação.

Mª Herminia – Você acha que um desenho é melhor do que um texto?

Simanca – Existem textos maus e desenhos bons. Textos bons e desenhos maus.

Mª Herminia – Qual é o objetivo da sua criação enquanto arte que se apresenta em uma linguagem que vai além do que se olha?

Simanca – Um quadro, o interpretamos de diferentes maneiras e em distintas etapas de nossas vidas. O livro que lemos ontem não é o mesmo livro que lemos hoje e não o será quando o relermos daqui a 20 anos.

Mª Herminia – Quais são suas principais influências?

Simanca – Goya, Posada, Brad Holland, Roland Topor, Adolf Born, Zabránsky, Pekarev…

Mª Herminia – Seu trabalho envolve a crítica constante, uma ironia, você compartilha isso?

Simanca – Esse é o trabalho do desenhista satírico a crítica aguda.

Mª Herminia – Mencione alguns trabalhos mais importantes da sua criação.

Simanca – São muitos. É difícil escolher. Alguns têm uma importância momentânea, já que se referem a um fato acontecido e depois perdem a transcendência. Outros são atemporais e outros se mantêm sempre atuais.

Imagem www.cagle.com

Mª Herminia – Pode a charge estar relacionada à memória enquanto fenômeno característico dos últimos tempos?

Simanca – Se pode estudar a história por meio das charges.

Mª Herminia – Como você vê o espectador envolvido na sua obra, como simples contemplador ou como um intérprete?

Simanca – Sou um consumidor do meu próprio trabalho. Alguns desenhos me provocam o riso, outros a reflexão. Me sinto como um espectador se o desenho, que neste caso seria o ator, faz uma boa interpretação, eu creio nessa atuação e se eu creio, o público (os leitores) também vão identificar-se com o problema que eu estou mostrando. O Cartum Editorial não dá soluções aos problemas, ou não os mostra, para que os responsáveis dêem uma solução, coisa que lamentavelmente nem sempre sucede.

Mª Herminia – Qual você acha que é o papel da charge enquanto linguagem visual que reflete sobre a realidade, sendo que na sociedade contem- porânea a imagem é um significativo recurso de comunicação?

Simanca – A charge cumpre o papel de unir o humor à crítica política e à análise e reflexão sobre o cotidiano.

Mª Herminia – Sendo um cartunista firmado no panorama internacional, como você vê o desenvolvimento do humor gráfico, da charge na América Latina?

Simanca – A América Latina sempre teve uma grande tradição em caricatura. Inclusive em momentos de ditaduras surgiram grandes criações. Com o surgimento da internet se abriram novas oportunidades para o cartum.

Biografia do Artista

Osmani Simanca nasceu em Santa Clara, Cuba em 1960.

É graduado na Academia de Belas Artes “San Alejandro” e no Instituto Superior de Arte em Havana.

Começa sua carreira como cartunista em 1975, no jornal humorístico DDT em Havana. Seus desenhos têm sido publicados em inúmeras revistas e jornais ao redor do mundo. Desde 1995 mora no Brasil onde se nacionalizou brasileiro.

Entre seus prêmios destacam-se:

1987 – Prêmio de Desenho Humorístico. União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba.

2000 – Prêmio “Péricles Maranhão” (Cartum) e Prêmio “Crispim do Amaral” (Caricatura). II Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco FIHQ. Recife, Pernambuco.

2002 – Primeiro Prêmio Perenquén de Oro Desenho Humorístico. VII Bienal de Caricatura y Dibujo Humorístico de Tenerife, Islas Canarias. España.

2004 – Terceiro Prêmio Charge XV Salão de Humor Carioca. Rio de Janeiro. Brasil. Prêmio “Knack” 43 Knokke-Heist Cartoon festival, Bélgica.Primeiro Prêmio Desenho Humorístico. I Concurso de Humorismo Gráfico Ibero-americano CEXECI 2002-2003. Extremadura, España. Prêmio Ex Aequo. Biennale Internazionale Eurohumor 2003

2004, Borgo San Dalmazzo, Italia.

2005 – Segundo Prêmio Charge. 32º Salão Internacional de Humor de Piracicaba. São Paulo, Brasil. Terceiro Prêmio, The United Nations Correspondents Association, Ranan Lurie Political Cartoon Award for the Year. Terceiro Prêmio, Section caricature ‘Cinema Actors & Directors’ 7th Tehran International Cartoon Biennial. Irã.

2006 – Segundo Prêmio Charge, XV Salão Carioca de Humor, Rio de Janeiro. Primeiro Prêmio, GREEKARTOON “Cartoon Bridging Cultures” Ministério Helénico de Cultura. Ate- nas, Grécia.

Cartunista Editorial do Jornal A Tarde. Bahia, Brasil.

Em 1994 recebeu a Distinção Por la Cultura Nacional do Ministério de Cultura da República de Cuba, e em 2000 a Ordem Estadual ao Mérito Renascimento do Piauí no grau de Oficial do Governo do Estado do Piauí no Brasil.

Idealizador e Coordenador Geral do I e II Salão Internacional de Humor da Bahia 2001- 2002 no MAM.


Entrevista cedida a Maria Herminia Olivera Hernández para Revista Cultura Visual: Salvador, Nº 10, Setembro/2007 – Mª Herminia nasceu em Cuba, onde realizou seus estudos de graduação em Arquitetura. É Especialista em Restauro e Conservação de Monumentos e Conservação Preventiva de Bens Móveis. Realizou seu Mestrado e Doutorado na Universidade Federal da Bahia, onde é Professora Adjunta da Escola de Belas Artes. Vice-Líder do Grupo de Pesquisa Matéria, Conceito e Memória em Poéticas Visuais Contemporâneas (MCM), credenciado pelo CNPQ. Email:herminia234@yahoo.com.br

COMPARTILHAR
VEJA TAMBÉM