Luiz Gonzaga

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por redação Socialismo Criativo em 13/12/2018.

Mestre Lua, o Rei do Nordeste

A identidade musical nordestina foi levada pelo Brasil ao som da sanfona de Luiz Gonzaga. O cantor, natural de Exu, sertão de Pernambuco, viveu com sua família até os 17 anos, quando precisou sair às pressas da cidade. Tinha se enamorado da filha de um coronel, que, por isso, jurou-o de morte, fazendo o jovem Luiz fugir para o Crato, no estado vizinho, Ceará.

Longe de casa, Gonzaga serviu às forças armadas e viajou por vários estados brasileiros durante a Revolução de 1930. Em 1933, tentou ingressar na banda do exército, mas não teve sucesso. O artista, que começou a tocar acordeão ainda na infância, comprou seu primeiro instrumento musical aos 13 anos, filho de sanfoneiro, tinha sido reprovado em uma seleção entre seus colegas de quartel. Não se abateu: virou corneteiro da tropa e foi estudar sanfona.

Ao sair do exército, foi para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil.Queria viver de música. Tocava em troca de comida por bares e áreas de bordéis cariocas.No início dos anos 1940, participou de shows de calouros da Rádio Tupi. De sanfona a postos, tocava tango, bolero, algumas valsas. Suas avaliações eram sempre baixas, não passavam de 3,5 pontos. Ary Barroso, um dos grandes nomes da música do Brasil e uma das principais figuras do rádio, estava entre os que, em princípio, rejeitaram Gonzaga.

Certa feita, o pernambucano foi desafiado por uns clientes de um bar a mudar de repertório. A proposta era que Gonzaga recuperasse sons que estavam na sua memória afetiva: canções nordestinas. Foi, então, que sua identidade musical começou a se formar. Inspirado em um artista do Rio Grande do Sul – Pedro Raimundo – que fazia shows vestindo bombacha e bota,Gonzaga teve a ideia de usar trajes de vaqueiro em suas apresentações e, pela admiração que tinha por uma figura expressiva da história do sertão, o Lampião, adotou o chapéu de cangaceiro. Finalmente, conseguiu alcançar pontuação máxima no programa de calouros.

Porém ainda não estava satisfeito. Gonzaga queria cantar. Contratado como músico de um programa de auditório para acompanhar outros artistas, arriscou animar a plateia com voz e sanfona, mas seu timbre grave quebrava a estética do que se ouvia pelas rádios.O diretor do programa mandou tirar Gonzaga do ar. Alegou que pernambucano estava espantando audiência.

Em 1945, ano de nascimento de seu primeiro filho, o também cantor Gonzaguinha, Luiz Gonzaga conheceu Humberto Teixeira, que se tornaria um de seus principais parceiros nas composições. Juntos, fizeram, das histórias sertanejas, a lírica que marcou o cenário musical brasileiro a partir de meados no século XX. “Asa Branca”, de 1947, é assinada pela dupla e tornou-se o hino do sertanejo. Luiz Gonzaga virou referência do cancioneiro nordestino.

Teixeira e Gonzaga deram estatuto de sucesso de gravadoras ao baião, o que rendeu o título de “Rei do Baião” ao cantor. Entre as marcas de suas apresentações, estavam as histórias vividas pelo artista e cantaroladas entre as canções. O cotidiano, as memórias e a vida no nordeste eram a base de seu repertório. Em um de seus sucessos, o artista gravou:

– “Louvado seja o nosso senhor Jesus Cristo!”
– “Para sempre seja deus louvado!”
– “Seu Januário, estou vindo do Rio de Janeiro, trago recado do filho do senhor…”

Foi com o diálogo acima que o reencontro com seu pai, Januário, marcou a volta de Luiz Gonzaga à cidade Exu, no interior de Pernambuco, dezesseis anos após ter saído de casa. A conversa se tornou conhecida através da música “Respeita Januário”. “Puxeia meu pai. Isso me ajudou muito na vida. O moleque, quando acompanha o seu pai, tem esse privilégio, ele se torna mais seguro. E, se o velho for bom, ele também será um bom”, disse, certa vez, sobre seu pai.

Em 50 anos de carreira, cantando e tocando acompanhado de zabumba e triângulo, virou marca das festas juninas e do forró pé-de-serra. Luiz Gonzaga gravou 256 discos e 625 músicas. Destas, 53 eram, somente, de sua autoria. Foram 243 foram compostas em parceria, que teve, além de Humberto Teixeira, também Zé Dantas e Onildo Almeida. A expressividade da música difundida por Gonzaga é tamanha que “Asa Branca”, por exemplo, tem mais de 400 regravações.

A canção “A Vida do Viajante”, feita em parceria com Herve Cordovil, era o retrato do Gonzaga que dedicava parte de seu tempo viajando pelo país, desde a época em que servia ao exército. Como músico, sofreu dois acidentes na estrada. Um deles, inclusive, deixou o cantor cego de um olho. Apesar disso, Gonzaga continuou sua carreira.

O cantor pernambucano, reconhecido como Rei do Baião, apelidado de Mestre Lua, nasceu em 13 de dezembro de 1912 e faleceu em 2 de agosto de 1989, aos 77 anos. Em Exu, há o Museu do Gonzagão, dedicado à história do artista. No ano de seu centenário, foi lançado o longa biográfico “Gonzaga: de pai pra filho” (dir.: Breno Silveira, 2012).

Gonzaguinha declarou, em uma entrevista, ao ser perguntado sobre a representatividade do pai em sua vida: “Quando vejo uma praça cheia, com ele tocando, é, pra mim, uma das coisas mais bonitas que eu tenho da vida”.

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