Juarez Paraíso.

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por redação Socialismo Criativo em 14/12/2018.

Artista plástico e imortal

“Meu trabalho, da década de 50 até hoje, é um trabalho invendável” – Juarez Paraíso

Os setenta anos de carreira do artista plástico baiano Juarez Paraíso se aproximam. São décadas dedicadas às produções, ao aprendizado e ao ensino de Belas Artes. Com um currículo de experiências com fotografia, desenho, tapeçaria e murais, construiu um repertório que aguçou seu olhar, tornando o artista também crítico de artes plásticas, com textos publicados nos principais jornais da Bahia, como A Tarde, Tribuna da Bahia e o extinto Diário de Notícias.

Natural da Chapada Diamantina, do povoado de Arapiranga, na região de Rio de Contas, Juarez Paraíso chegou à capital baiana ainda na adolescência. Ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), como estudante, em 1950. Poucos anos após concluir o curso na Escola Belas Artes, tornou-se professor na instituição e, também, na Faculdade de Arquitetura da UFBA. Junto com alguns colegas, estudou sobre Arte Moderna, atualizando as abordagens curriculares que acadêmicos de gerações anteriores levavam às salas de aula.

Ainda nos tempos de estudante, tornou-se referência, junto com colegas como Riolan Coutinho e Carlos Augusto Bandeira: eram considerados privilegiados em relação à prática do desenho, da cópia, como habilidade que consagrou os renomados artistas realistas Presciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho. “Nós seríamos os grandes continuadores desses mestres, mas, depois, nos desvirtuamos para o caminho da Arte Moderna, que era, de certo modo, uma arte adversa, que negaria a academia. O que é um ledo engano, porque o artista moderno, quando continua naquela mesma exaustão de repetição, se torna, também, um acadêmico”, contou Juarez em uma entrevista.

Uma das características de sua trajetória está em não repetir padrões de trabalho, como ele próprio enfatiza. Há produções de fases eróticas, fases de denúncias de trabalho, de críticas, de leituras autênticas sobre a mitologia africana, fase de arte decorativa. “Sempre nessa proposição de não exaurir os cânones, de não ficar me repetindo, porque eu acho que a tarefa maior do artista é a de pesquisa, de estar sempre oferecendo um produto novo”, declarou.

Seu cuidado estético pode ser visto para além das galerias de arte: por quatro anos, a decoração do Carnaval de Salvador tinha uma narrativa desenvolvida por Juarez. Entre os prazeres da fruição artística está, exatamente, a possibilidade de mais pessoas terem acesso aos trabalhos produzidos, terem acesso a novos artistas. A vitrine que se tornou o Carnaval foi uma das formas encontradas por Juarez Paraíso para compartilhar suas artes plásticas.

 Bienal da Bahia

O empenho ao novo, à pesquisa, encontrou um projeto desafiador, marcando a história das artes no estado: Juarez Paraíso foi um dos responsáveis pela 1ª Bienal de Artes Plásticas da Bahia, realizada em 1966. O evento colocou Salvador como destaque nacional na discussão e produção artística, além de lançar novos nomes, estimulando e reconhecendo a importância dos artistas emergentes.

Na época, aportaram, na capital baiana, artistas que vinha movimentando o cenário das artes no Brasil: Lygia Clark, Flávio de Carvalho, Hélio Oiticica e outros de vanguarda. Eram anos delicados do governo militar, o que gerou interferência da 2ª Bienal da Bahia, realizada em 1968. De mais de duas mil obras inscritas, dez foram consideradas subversivas, comprometendo todo o evento e resultando na prisão do seu então secretário-geral, Juarez Paraíso, sob acusação de vínculo com o comunismo. A Bienal de Arte da Bahia ficou suspensa por 46 anos, tendo sua terceira edição, somente, em 2014.

Juarez Paraíso construiu sua história como um agente inquieto da criação, sempre declarando a necessidade de novas formas de experimentação artística, considerando os impulsos do ato criativo como irrefreáveis. “O produto artístico é fruto disso, desse impulso de humanidade que existe em todos os homens”, concluiu.

Acadêmico imortal

Em dezembro de 2018, pela primeira vez na história, a centenária Academia de Letras da Bahia, elegeu um artista plástico em seu quadro de acadêmicos. Juarez Paraíso vai ocupar a cadeira número 39, que teve como último titular o escritor e professor Edivaldo Boaventura.

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