Ângelo Roberto.

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“Os animais, sob olhar humano, são signos vivos daquilo que sempre escapa a nossa compreensão. Radicalmente outros, mas também nossos semelhantes, distantes e próximos de nós, eles nos fascinam ao mesmo tempo que nos assombram e desafiam nossa razão.” (Maria Ester Maciel, 2016.)

O corpo curvado sobre uma prancheta levava a mão de traços exatos para preencher os espaços em branco do papel na preparação de mais um: outro cavalo surgia. Assim foi escrita a parte mais realçada da biografia de Ângelo Roberto (1938-2018), artista plástico baiano. Ilustrador, era com bico de pena que transforma em arte as imagens que permeavam sua poesia. Os cavalos eram a expressão mais leal em suas obras. “É o animal mais bonito que eu conheço”, dizia. E as caricaturas expressavam os amigos do artista boêmio com os personagens da cidade de Salvador, das madrugadas sem fim, das noites, alegres e tristes, dos trocadilhos bem humorados que marcaram sua existência.

As caricaturas de Ângelo Roberto expressavam amigos e personagens de Salvador.

Do interior no sul da Bahia, na cidade Ibicaraí, onde nasceu, mudou-se para Salvador com a família, aos seis anos de idade. Em 1948, foi premiado no concurso “A Postos Desenhistas”, no Rio de Janeiro. Sua primeira mostra foi em um congresso de escritores infantojuvenis em São Paulo, em 1952.

Aos 12 anos, Ângelo Roberto ganhou seu primeiro prêmio. Imagem reprodução

Fez carreira com trabalhos em jornais de Salvador, como o antigo Jornal da Bahia e o A Tarde, onde assinava como caricaturista. Trabalhou na área publicitária, ilustrou cartazes de filmes e mais de 30 livros de escritores baianos. “Eu gosto de desenhar, é isso”, explicava sobre seus afazeres.

Cavalo e o animal mais bonito que eu conheço – dizia Ângelo Roberto. Imagem Reprodução.

Não por acaso, fora chamado de Mestre do Desenho. “Ângelo Roberto é, principalmente, um artista da linha e do tracejado, das impressionantes tramas de bico de pena. Mestre do bico de pena, Ângelo Roberto já produziu centenas de desenhos de grande beleza plástica (gráfica). Depois de desenhar os mais variados temas, Ângelo Roberto concentra-se no desenho de cavalos, de excepcional qualidade plástica. Com magistral interpretação, Ângelo Roberto utiliza-se do movimento contínuo para a configuração básica da imagem virtual do cavalo, representando a sua energia incontida, e, mesmo em posicionamento estático, o movimento dirigido cria as tensões visuais necessárias para a estruturação rítmica do conjunto. A dimensão do desenho torna-se espaço-temporal”, escreveu o também artista plástico Juarez Paraíso.

As obras de Ângelo Roberto trazem cotidianos em que a presença do animal esta associada a vida humana.

Em sua trajetória, Ângelo Roberto nunca deixou de ser aquele que desenhava pelo prazer da criação, com movimentos elegantes e linhas belíssimas, como as que via nos bichos que retratava.Seus cavalos têm movimento, solitários ou em duelos entre si e com outros animais, têm expressões que ofertam narrativas, como de histórias conhecidas de cachorros que marcam seus territórios com latidos na tentativa de espantar o elegante… cavalo.

Os animais são marcas nas ilustrações de Ângelo Roberto.

Cotidianos observados na dimensão dos detalhes estão nas ilustrações do artista. O sol, tão natural quanto simbólico, fazia-se presente também. Caçar uma galinha d’Angola para refeição, observar um bode que passa com o badalar do sino ao pescoço, como São Francisco de Assis ao curvar-se diante da maestria do voo dos pássaros. Assim foram sendo traçadas as linhas de seu legado de arte, do qual falou: “Os defeitos que eu vejo em meu trabalho, os críticos não veem. A maioria é cega”.

São Francisco de Assis de Ângelo Roberto.

Foi no verão soteropolitano de 2018, em janeiro, quando Ângelo Roberto, depois de sete décadas de traçados, faleceu.

Ângelo Roberto nasceu em Ibicarai, interior da Bahia, em 1938, e faleceu em Salvador, em 2018.

Neste vídeo de 2017, publicado por Iano Andrade, pode ser conferido um pouco mais do artista Ângelo Roberto.

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